—Se fosse verdade o que? Não tenho geito para adivinhações, já disse!
A Isabel, que, pelo sim pelo não, tinha tirado a panella do lume, veiu postar-se ao lado da filha, para lhe accudir em caso de necessidade.
O Jorge falou, falou, a principio com desabrimento e violencia, depois com menos força, como se o desabafo a pouco e pouco lhe minorasse a acuidade do tormento. Disse tudo o que o amigo lhe tinha contado, sem nomear, já se vê, o José Maria.
Ouviu-o a Rosa com um sorriso desdenhoso, como se désse pouca importancia a tudo aquillo. Depois, cruzou os braços, deixou cahir o corpo sobre a perna esquerda, e ficou a miral-o atravez dos olhos semi-cerrados, meneando a cabeça e batendo febrilmente no chão com a ponta do pé direito. Dir-se-hia que mal continha a impaciencia. Tinha tido muito medo ao perigo quando o sentia longe, mas agora que o via diante de si, affrontava-o ousadamente, chegava quasi a pensar que o havia exagerado.
Pela sua parte a Isabel acompanhou a objurgatoria com uma gesticulação larga, em que a indignação e o espanto se traduziam alternadamente, e tanto que o genro se remetteu ao silencio, bradou com toda a energia:
—E ha quem metta a sua alma no inferno com esses falsos testemunhos!
—Ha, sim, minha mãe! acudiu a Rosa, com voz aspera e vibrante. E tambem ha quem não se envergonhe de os acreditar e repetir!
—Credo, credo! Tal desgraça! murmurou a Isabel não atinando com outra phrase.
—Eu não digo que seja tudo verdade, acudiu o velho entibiado pela ousadia da mulher, mas alguma coisa ha de haver! O dictado não mente: voz do povo, voz de Deus.
—Voz do diabo! atalhou a Rosa de prompto, e com o pescoço estendido e a cara bem defrontada com a d’elle perguntou: Mas se acredita o que lhe disseram, para que veiu ter commigo? Se fiz tudo isso, se não presto, devia arredar-se de mim por uma vez!