—Bem! Bem! Haja saude! Não lhe digo nada. Mas não admira que o José Maria... Se nunca poude levar á paciencia o teu casamento!... E tinha razão. Se eu não tivesse consentido, estavamos livres d’esta freima. Valha-me Nossa Senhora!

E afogou o resto da phrase n’um grande choro de carpideira, entrecortado de soluços e arrancos.

—Cale-se, senhora, cale-se para ahi! ordenou-lhe o velho, aturdido e impacientado.

—Não, senhor, não me calo! Até os proprios animaes defendem os seus filhos.

N’uma explosão de ternura, correu para Rosa, beijou-a e murmurou, chegando-a a si:

—Ainda que todos te criminem, eu sempre direi que estás innocente!

E como a rapariga, desafeita ainda a hypocrisias, a afastasse um pouco, sentindo apesar de tudo instinctiva repugnancia pelo que a mãe estava fazendo, continuou queixosamente:

—Elle é isso? Já me não queres ao pé de ti?... Tomas raiva a toda a gente, vendo-te accusada por quem só te devia defender?... Coitadinha!

Enxugou uma lagrima hypothetica, e com a mão no hombro do genro exprobrou-lhe que elle fizesse côro com a malta dos invejosos. Sim! O que os Cains não podiam levar á paciencia é que elle fosse feliz com a Rosa, não obstante aquella differença das idades, havendo tantos maridos tão novos como as mulheres, e até mais novos, que andavam apontados a dedo, pelo castello e pela cidade.

—Anda! Faze a vontade a essa corja! continuou a viuva. Sabes que mais? Antes de vocês casarem, vieram dizer-me que o que tu querias era uma enfermeira para te tratar, porque d’aqui a pouco havias de tornar-te, a bem dizer, um poço de doenças, e que eu não devia, por ser uma dôr de alma, condemnar a pobre pequena a uma vida de negra! Eu sei lá o que me vieram buzinar aos ouvidos! Pois eu deixei-os falar, e, como ella era muito tua amiga consenti no casamento... É que eu não sou como tu, não faço a vontade aos maraus!