—Muito cuidadinho, recommendava ella, quando alguma vez ficava a sós com a filha. O Jorge está aqui, está certo de que tudo foi mentira. Mas ai de ti, se lhe fizesses voltar as desconfianças. Era capaz de matar-te!
—Entre mortos e feridos sempre ha de escapar alguem, objectava a rapariga. E espero em Deus mandal-o adeante.
VIII
No dia de S. Pedro á tarde a Isabel aconselhou á filha e ao genro que fossem dar um passeio, e como suppunha que não lhes agradassem os sitios mais concorridos, lembrou o monte Brazil. Mettidos entre quatro paredes, sem nunca se distrahirem, pensava ella, estariam sempre de mau humor, e difficilmente acabariam de congraçar-se.
Não os acompanhou, porque a sós poderiam entender-se melhor. De mais a mais, já tinha feito bem o seu dever.
Os dois acceitaram o conselho, e foram pelo caminho, que a meia encosta ladeia o monte, passando á ilharga das ruinas da antiga casa de recreio dos governadores da praça, e vae ter a uma plataforma de rocha sobranceira ao mar.
Pelas aguas tranquillas da angra, que deu o nome á cidade, deslisavam alguns barcos, onde familias da burguezia e do povo andavam a recrear-se em honra do santo pescador.
Chegados ao extremo do caminho, o velho sentou-se n’um comorosinho coberto de relva já amarellecida pela soalheira, e a Rosa, para estar bem longe d’elle, foi para a beira da plataforma, e descahiu os olhos para o mar. Avistou-o em baixo, ao deante da rampa, que desce em vertiginoso declive e termina em empinada muralha banhada na base pelas aguas, alli escuras e profundas.
Um barco ia rodeando o monte, de volta para a cidade. A Rosa conheceu logo os passageiros. Eram o dr. Brum, um rapaz moreno e cheio de vida, e a mulher, uma loura de afamada belleza. Tinham casado por grande paixão, uns quatro mezes antes. Ella reclinava a cabeça no hombro do marido. Pareciam ainda na lua de mel.
—Como eram felizes!