A Rosa não acreditou que tudo aquillo fosse verdade, se bem que o retrahimento do amante lhe tivesse causado uma desillusão profunda. O Luiz não a atraiçoava com a Genoveva, lá isso não!—Achava até ridicula semelhante rivalidade; não a tomava a serio.—Mas em todo o caso, não era homem para arrojos, nem sacrificios. Cego pelo amor, atrevera-se a muito; agora, estava com medo das consequencias, incapaz de imital-a, a ella, que se tinha arriscado a tudo, e que não hesitaria, se elle a quizesse levar comsigo, em deixar o marido, receiosa tão somente por acabar de perder-se na opinião de todos, e d’este modo não ser digna de gosar, algum dia, a felicidade para que se julgava destinada. Pois o Luiz não conheceria que só o amor a tinha arrastado áquellas loucuras, e que se estivesse casada com elle, mulher nenhuma seria mais honrada? Sim, o amante ainda havia de recompensal-a de tudo o que lhe fazia padecer.

Era a sua esperança, a sua crença.

Mas o procedimento do Luiz desorientava-a, quasi lhe fazia perder a coragem. Chegava a querer-lhe mal, mas iria padecendo até esse dia feliz.

Ao marido já tinha raiva.

—Pois não era elle a causa de todas aquellas desgraças? O unico obstaculo, que não a deixava ser feliz?

O Jorge, pela sua parte, andava como atordoado. Parecia viver n’um sonho. Ainda o assaltavam desesperos subitaneos, quando julgava a denuncia verdadeira, e então sentia impetos de matal-a e matar-se; mas em breve acalmava, porque lhe acudiam á memoria as explicações dadas pelas duas mulheres.—A mãe não podia estar combinada com a filha!

Via a Rosa melancholica e taciturna, mas via-a! Tinha-a sempre alli, como coisa legitimamente sua. Possuia-a sem medo de ninguem. Não trocava a sua sorte pela de outro, ainda que fosse verdade o que... Não! Era uma falsidade, uma perfeita mentira!

—Não me perdoou ainda eu julgal-a tão mal e tem razão, pensava o Jorge, por vel-a n’aquella attitude. E até se arrependia de não ter forçado o amigo a declarar-lhe o nome do mentiroso, para se vingar, e vingar a sua pobre mulher, que estava innocente.

Lembrava-se de pedir-lhe perdão, de propor-lhe sairem da Terceira para S. Miguel ou para outro logar ainda mais distante, onde ninguem os conhecesse, onde não chegasse a calumnia. Mas ao encontral-a tão reservada, calava se, perdia o animo, e a duvida logo recomeçava no seu trabalho surdo e implacavel.

—Pois senhores, dizia comsigo a Isabel fiada n’este apparente socego, pelos modos não chega a haver trabuzana. Tenho de levar um cyrio á Senhora do Livramento.