—Não sabeis o que se conta da mulher do sargento Luiz?
—Da antiga ama do conego Ricardo? perguntou, immediatamente a Luiza.
—Isso! Que já a prega na menina do olho ao marido, com um estudante do seminario!
—E elle que se ha de affligir! acudiu a Isabel com rancor. Não lhe tirem os moios de renda deixados pelo conego, pois quanto ao mais...
* * * * *
Sempre cabisbaixo, andando á pressa e murmurando uma vez por outra palavras que ninguem percebia, o Jorge só era visto d’alli em deante nas ruas do castello, quando ia de manhã para o armazem do material de guerra ou para a terra do monte Brazil, e á tardinha, quando recolhia.
Quem de noite lhe passasse á porta, mesmo fóra de horas, via pelas frinchas a claridade da candeia, e sentia lá dentro, com frequencia, os passos do velho, medindo em todos os sentidos a casa terrea, e ouvia de quando em quando um suspiro mal reprimido. Quando lhe perguntavam se queria alguma cousa não respondia e ficava á escuta, para continuar na mesma, apenas ia longe o importuno.
Uma noite o José Maria, embora soubesse que o Jorge, como sempre, o receberia mal, entrou-lhe á força em casa e fez-lhe ver que elle estava dando cabo de si, o que era um grande peccado.
—A vida, é Nosso Senhor quem a dá, só elle a póde tirar, retorquiu o Jorge. Cuidas que se não acreditasse n’isto, já não tinha ha que seculos?...
E sem rematar a phrase, continuou a passeiar pela casa, alheio a quanto o rodeava.