—Ah! Se podesse tornar a salval-a, trazendo-a apertada nos braços!... Formulava mentalmente este desejo, que parecia de certo uma enormidade ao meu pudor dos quinze annos, quando notei que a Georgina olhava fixamente para o meu lado.

Desviou a vista, quando a encarei, mas d’alli a pouco estava a olhar outra vez.

Senti então um dos maiores prazeres da minha vida. Comprehendi o motivo por que a julgava outra, adivinhei o que era o sentimento novo que me dominava.

Valeu-me para a descoberta o andar a ler o Visconde de Bragelonne, no ponto em que se descreve a seducção de La Vallière. Lembrei-me até de que o maroto do Alexandre Dumas torna quasi cumplices na queda da pobre Luiza uns passarinhos, que havia na sala e que no momento em que Luiz XIV cae aos pés da namorada, chilream dentro das douradas gaiolas uma toada de indizivel concupiscencia, o que ainda mais entontece a futura carmelita. Ora emquanto eu olhava para a Georgina, tambem cantava um passaro, um melro, empoleirado n’uma magnolia do jardim. Achei de bom agouro a coincidencia.

É claro que não emparelhava a Georgina com a La Vallière—via-a como aquella a quem havia de ser unido para sempre, visto que o amor assim nos destinara um para o outro.

Com uns restos de duvida, olhei em roda de mim.

No lado da sala onde eu estava, não havia mais nenhum homem, a não ser o escrivão de fazenda, sujeito de grande bigodeira e voz soturna, que recitava pelas salas o Noivado do sepulchro e a Doida de Albano.

Era solteiro, mas tinha mais de tres vezes a edade de Georgina. Fiquei radiante. Era para mim com certeza, que estava olhando. D’alli a pouco fomos jantar.

Não comi nada, porque ella, apesar de ter ficado ao pé de mim, não me deu a minima attenção.

Como já tambem conhecia a existencia das coquettes, perguntei a mim mesmo se a Georgina seria uma d’ellas, e resolvi provocar o mais cedo possivel uma explicação decisiva.