Como achou boa a lembrança, o velho deitou-se para cima de um monte de saccos de milho, e adormeceu pouco depois, a rezar um padre nosso pelo José e por todos os que andavam sobre as aguas do mar.

* * * * *

Por volta da meia noite, acordou estremunhado.

—Está aqui, está na areia! dizia uma voz, que elle não conheceu. Ande, ó tiosinho, dê-me um copo de aguardente da terra, para me consolar o interior! Bem vê que estou como um pinto.

Assomou á porta e perguntou ao barqueiro, que assim falava:

—A Alegria do Mar é que está em perigo?

—Bem visto que sim! Aquella já fez a sua ultima viagem. Está aqui, está feita em estilhas.

O Manuel João desatou a correr pela porta fóra, como um doido, e pela primeira travessa que topou á mão direita, arremetteu para o lado do mar.

No sitio aonde foi ter, as vagas não batiam na muralha, porque lhes quebrava a furia um cómoro de areia.

Ninguem! Nenhum som de voz humana, atravez dos bramidos do temporal! Não viriam accudir áquelles desgraçados?... Sim! Ao pé da alfandega, lampejou um clarão avermelhado. Archotes, que marcavam ao navio em perigo o sitio melhor para encalhar.