—É que a brincadeira vae ser um boccado seria, alvitrou o patrão-mór, designando o céo com um gesto circular.
O Manuel João, que tinha acabado de voltar e que os ouviu, perdeu o acanhamento e perguntou afflicto:
—Ha perigo, sr. capitão? Valha-me Nossa Senhora! Ha perigo de a barca vir a terra?! Ai! O meu filho, o meu rico filho!...
Compadeceu-se o official de marinha e para socegal-o disse-lhe que o navio tinha boas amarras, que o temporal havia de amainar, e que ficasse elle certo de que na manhã seguinte veria o filho ao pé de si, são e escorreito.
—Deus Nosso Senhor o ouça! Mas que noite eu vou passar!...
E como do alto do caes não via a barca, foi em busca de um sitio d’onde ao menos podesse enxergar o navio, em que estava o José. Ah! Em casa do primo havia uma falsa fronteira ao ancoradouro!... D’alli a pedaço lá estava o Manuel João, olhando para o mar por um oculo americano que o primo lhe emprestou, e que em tempo claro punha a Magdalena mesmo ao pé da gente, apezar das cinco milhas que ella dista do Fayal.
Ainda bruxuleavam os ultimos clarões da tarde. Depois de muitas tentativas, o velho lá conseguiu descobrir o tombadilho da barca ... e tres homens... Se algum d’elles seria o filho?... Pareceu-lhe que sim!... O mais alto!... Bastava-lhe poder vel-o bem um instante sequer... Em vão!... Quanto primeiro lobrigara, desvaneceu-se de todo com as trevas que augmentavam.
Os olhos, a arderem como se os picassem alfinetes, deixaram de ver. Não! Viram logo depois uma luzinha, a do pharol de bordo, passar e repassar no vidro immovel do oculo, a compasso com os balanços do navio, n’um movimento de vaevem, como a dizer-lhe que não! que não! que elle não veria o filho! Atordoado, fechou a janella, a que já era difficil estar, pela violencia da ventania.
Em baixo, no botequim, o primo deu-lhe animo, e, repetindo a prophecia do capitão do porto, affirmou-lhe que o José, d’alli a meia duzia de horas, lhe metteria os tampos dentro com um abraço.
—Sabes que mais? Vae dormir, que é a maneira de não sentires passar o tempo.