—Ó meu tenente, redarguiu o artilheiro ilheu com cara muito seria, pois elle havera de estar calado, tendo uma bocca tanto grande e sempre escancarada?! Até parecia mal!
—Em todo o caso foi doidice, continuou o tenente a rir.
—Saiba V. S.a que muitos senhores officiaes tambem dão cá á gente d’esses maus exemplos. V. S.a desculpe, mas parecia mesmo doidinho, quando n’aquelle dia em que lhe atravessaram o corpo com uma bala, queria á fina força, mal lhe fizeram o primeiro curativo, continuar a commandar a sua peça. Eu bem me lembro! Só á má cara é que o arrancámos de lá. Por isso, accrescentou o Jorge, indicando a insignia da Torre Espada que ornava o peito de José Victorino, fez muito bem o nosso Imperador dando a V. S.a essa fitinha azul ferrete.
—Pois tambem tu a mereces e has de tel-a, affirmou o official.
E teve effectivamente uma das quatro destinadas a artilheiros, na ordem do dia relativa ao combate.
Todas as testemunhas lhe foram favoraveis no inquerito, em que se baseou a concessão.
Ainda assim o Jorge, embora no seu intimo estivesse a babar-se de gosto, não se fartou de desculpar-se para com os camaradas, dizendo que tudo aquillo era obra do tenente José Victorino, e que, verdade, verdade! o que elle tinha feito, fazia-o qualquer galucho.
Depois da convenção de Evora Monte, mandaram-o para a sua terra, para a ilha Terceira, e d’alli a annos arranjaram-lhe passagem a veteranos e o emprego de fiel do material de guerra.
Tinha á sua conta o armazem fronteiro á porta dos carros do castello de S. João Baptista.
Alli, ou n’uma courella do Monte Brazil, que os governadores lhe davam para cultivar, gastou elle durante muitos annos as longas horas do dia, que sempre lhe pareciam curtas.