O jantar do casamento foi em casa do Jorge.
Tudo correu bem e só houve de notavel o pregar a Isabel, já um tanto avinhada, uma furiosa descompostura na Luiza Braga, porque a viu á porta da rua, espreitando.
Os convivas apaziguaram a questão e d’alli a pouco despediram-se, indo o José Maria, um quasi nada alegrote, acompanhar a Isabel, até casa.
—Parecemos tambem dois noivos, disse o velho, batendo-lhe, com a mão aberta, no meio das costas, e foi-se embora a trocar as pernas, em quanto a viuva lhe gritava do limiar da porta que «para um marido tanto fino só a rainha que estava em Lisboa!»
N’aquella noite, mercê das copiosas libações, dormiram mais profundamente alguns dos habitantes do burgo militar, que pousado no isthmo que liga a peninsula do Monte Brazil ao resto da ilha Terceira, olha sobranceiramente para Angra atravez das suas numerosas canhoneiras.
II
O Jorge tinha perto de cincoenta e oito annos.
Alto, espadaudo, bem conservado, era, sob o ponto de vista militar, um exemplo vivo do que tinha sido o exercito portuguez, em quanto o governou a disciplina implantada pelo marquez de Campo Maior, e conservada pelos officiaes que tinham servido com o famoso organisador inglez. Era um gosto vel-o perfilar-se deante de um superior e fazer-lhe a continencia com todos os tempos e prescripções da ordenança!
Aos domingos, para ir á missa regimental, punha ao peito o habito da Torre Espada, que tinha ganho no cerco do Porto, por estar umas poucas de horas a disparar sósinho um obuz, contra umas alturas, cujo accesso convinha a todo o custo impedir ás tropas de D. Miguel. As demais praças que primeiro guarneciam a bocca de fogo e outras que vieram substituil-as, tinham ido cahindo, a pouco e pouco, ás balas de um regimento transmontano, espalhado em atiradores na frente da bateria.
—Maior Africa tu fizeste, dizia-lhe n’essa tarde o primeiro tenente José Victorino Damasio, em ficares com ambos os braços, do que em escapar ás ameixas d’aquella sucia! Tu és doido! Servir sósinho um obuz!...