N’este comenos viram-se distinctamente, sobre o fundo cinzento do céu, tres vultos humanos agarrados á amurada do lado da pôpa. Ainda escabujavam na lucta suprema da morte.
—Fiquem a bordo! gritou-lhes de terra um homem, alongando as syllabas e fazendo porta-voz com ambas as mãos.
—A bordo! Podem lá resistir áquelles mares! objectou o patrão-mór, embora calculasse que seria irremessivelmente envolvido e tragado pela resaca, o temerario que pretendesse ganhar a costa, nadando.
—Ahi veem elles! Ahi veem elles! bradou subitamente uma voz e repetiram logo muitas outras.
—Aproveitaram-se dos mastros! Salvam-se com certeza!
Então os espectadores da tragedia olvidaram o perigo e, atravez de uma aberta da muralha, correram para o areal. Tres ou quatro mais affoutos entraram pela agua dentro a buscar os naufragos, que vinham engatinhando ao longo dos mastros, arriscados, uns e outros, a que os esmagassem aquelles madeiros, já meio partidos e desconjuntados, mas que ainda se erguiam e baixavam pesadamente ao embate dos vagalhões.
Afinal conseguiram salvar-se tres naufragos, e foram levados em braços para uma loja perto d’alli.
O velho furou por entre os curiosos, que se apinhavam á porta, e achou-se no interior da casa.
Mas era difficil ver qualquer coisa, á luz dubia espalhada lá dentro por uma candeia. Por fim conheceu que dois d’elles eram já de bastante edade e que sómente o terceiro... Estava deitado sobre uma enxerga, com os olhos fechados, o parecer quasi cadaverico, os cabellos collados á testa. Mas a estatura era a mesma do José... E as feições, a côr, tudo!... Era elle, por força!... Só se Deus Nosso Senhor não fosse de bondade e misericordia, deixaria que o pobre rapaz...
Examinou melhor o infeliz, que já ia recuperando os sentidos.