O velho sahiu d’ali para fóra cambaleando, e parou no sitio onde devia ter estado sempre, onde podia salvar o filho. Outros certamente o haviam salvo, em logar d’elle.
—Não! Ninguem mais tinha escapado.
A barca, durante aquelle tempo, acabara de esmigalhar-se. No principio tinha abalos convulsivos, erguia-se para tornar a cahir desamparadamente, luctava, estrebuchava, como se o instincto de conservação lhe déra forças contra o gigante. E o mar tambem parecia exasperado por aquella resistencia. Sacudia a pobre Alegria do Mar com os impetuosos estremeções da féra, que abócca a presa e a abana e estracinha, para reduzil-a por uma vez á immobilidade da morte.
Ao cabo a tempestade foi amainando, e na praia ficavam dois ilhotes cravados na areia, a curta distancia um do outro—a proa e a pôpa do navio, com o tombadilho empinado, quasi a prumo. No da proa ainda existia um pedaço da borda, a que tinham estado aferrados os ultimos naufragos, e d’onde os levara a um e um o pavoroso remoinhar das vagas.
Aquelles dois fragmentos informes eram quanto restava da Alegria do Mar, que poucas horas mais cedo, as vélas cheias de vento, cortava ligeira as aguas do Atlantico; os tres naufragos, os unicos sobreviventes dos quarenta que alli vinham, todos valentes campeões da lucta pela vida, alguns a procurarem, com a vista no horisonte, a terra da patria e antegosando as sonhadas alegrias do regresso.
* * * * *
O Manuel João, perdida a ultima esperança, voltou para os Cedros no outro dia á tarde, mais arrastando-se do que andando por aquella estrada, que lhe pareceu dez vezes mais comprida.
Logo que a Andreza o avistou, saiu-lhe ao encontro. Já sabia do naufragio, mas cuidava que o filho tivesse escapado.
Dissera-lh’o por dó um visinho, que acabava de voltar da cidade.
—Onde está o nosso filho, Manoel João? Onde está o nosso filho?