O criado fez o que lhe mandaram, e ainda mais, pois que, ao ver o prato, abriu muito os olhos e a bocca. Não era preciso ter lido a Expressão das emoções de Darwin, para se conhecer que o homem estava no auge do espanto.
E não era para menos.
A lampreia lá se achava, muito enroscada, mas faltava-lhe, vimol-o todos, faltava-lhe a cabeça! Quem lh’a decepára, tinha deixado vestigios do attentado á borda do prato, n’uns fios de ovos e tiras de geleia de fructa, que tomavam, ante a gravidade da situação, a apparencia de um rasto de sangue. Horrivel permenor: um dos olhos da victima—uma ginja em doce—jazia a um lado, viuvo da orbita!
Lili empallideceu, e deixou cahir da mão a colher que empunhava, prompta para a lucta da sobremeza, mas ia pegar-lhe outra vez, quando o pae, deveras zangado, lhe perguntou quem tinha feito aquillo á lampreia.
—Eu não sei, papae.
—Sabes, sim, foste tu mesma!
Lili voltou os olhos para a mãe, e não achou piedade.
—A menina não foi, não senhor, murmurou quasi choramigando. Olhe, papae, quando eu vim ás tres horas á casa de jantar, andava em cima do aparador o gato... o Moleque... Foi elle!
O pae reprimiu um sorriso.
—Ah! Foi o Moleque? Pois o Moleque pagará as custas, quando nos levantarmos da mesa.