A Lili nem sequer provou dos doces e pudins.

Como não estaria aquelle pequenino coração!

Depois do café, servido na sala contigua, Fernando mandou ao creado que fosse buscar o Moleque, e disse-lhe por fim algumas palavras em voz baixa.

Decididamente a situação tomava uma gravidade excepcional. Lili chegou-se á mãe com receio, e ficou a olhar para todos, cheia de desconfiança.

—Meus senhores, disse-nos o dono da casa, fitando muito a filha. Vamos ser juizes n’um processo importante. Luiza accusa o Moleque de um roubo, que é ao mesmo tempo um abuso de confiança... Ah...! Ahi chega o criminoso.

O gato acabava effectivamente de apparecer ao collo do creado. Se a Lili se mostrava desconfiada, o Moleque apparentava a maior placidez. Após o creado, vinha a cosinheira, uma rapariga alta, robusta e mal encarada; trazia a mão direita escondida atraz das costas.

—Temos, portanto, continuou Fernando, que o Moleque não só praticou um roubo com abuso de confiança, mas, o que é peior, decepou a cabeça da lampreia. Vamos julgal-o. Queiram sentar-se.

Emquanto iamos tomando logares, disse-nos elle algumas palavras em francez. Puzemo-nos ainda mais carrancudos.

A creança via tudo isto com olhares attonitos.

—Dize-me outra vez, ordenou-lhe o pae, que não foste tu que roubaste a lampreia! Não?... Então foi o Moleque?