O Casimiro não se conteve mais tempo e agarrou a mulher por um braço.
—Anda, anda lá! Olha que eu pego a gritar aqui d’el-rei! ameaçou ella.
Ainda não tinha acabado estas palavras, quando a mão do marido, batendo-lhe no alto das costas, a atirou de bruços, para o chão.
—Aqui d’el-rei! Aqui d’el-rei! Quem m’acode!
O José Antonio não quiz ouvir mais nada e foi de corrida buscar o administrador do concelho, que estava alli perto, na Assembléa, a jogar a sua costumada partida de voltarete.
Apenas conheceu a voz da auctoridade, o Casimiro abriu a porta e deu-se á prisão sem resistir.
* * * * *
No dia seguinte, ás dez horas, foi a perguntas, á casa da audiencia.
O juiz, velho de cabello completamente branco e falar pausado, depois de ouvil-o, censurou-lhe, com azedume mas sem desabrimento, a baixeza por elle praticada, em abusar da força para bater n’uma mulher, que se lhe entregara esperando generosidade e protecção, e não violencia e tyrannia.
O preso escutou silenciosamente as palavras do juiz. A principio conservou as sobrancelhas cerradas, e o olhar fixo n’um ponto do sobrado, como se nenhuma attenção prestasse ao que lhe estavam dizendo. Afinal, porém, as feições distenderam-se-lhe, um tremor convulsivo começou de agital-o, e ao mesmo tempo que do peito lhe irrompiam os soluços, foram-lhe as lagrimas rolando pela cara.