—Bem! Bem! disse o juiz. Não se afflija. Pelo que vejo está arrependido do que fez...
Interrompendo-o com um gesto, e suffocando dentro em si o ultimo soluço, o Casimiro começou a falar, com voz pouco perceptivel emquanto o não arrastou o calor da narração. Se o juiz o tratasse mal, não lhe diria nada, ou seria até capaz de uma violencia. Todavia a maneira por que o magistrado se lhe dirigira, os conselhos que lhe dera mais pezaroso que severo, tudo o fôra vencendo gradualmente. Pareceu-lhe que se o tio João Furtado—o pae do Casimiro, em vez de estar enterrado no cemiterio de Villa Franca ha muitos annos, lhe apparecesse n’aquella occasião, usaria das mesmas falas, mas não tão bem feitas como as do sr. juiz. Para este não queria portanto o marido da Luiza parecer um mau homem.
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Contou-lhe a sua vida toda, e o juiz quando elle acabou de falar, apertou-lhe a mão commovido, e mandou-o embora, recommendando-lhe prudencia.
As mulheres da villa quando souberam que o Casimiro estava solto e que não passaria trabalhos, vociferaram que tão bom era o juiz como elle. Talvez dissessem isto, porque não ouviram o Casimiro.
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Contou ao magistrado a sua vida: como tinha casado com a Luiza, que n’esse tempo era a bem dizer uma pequenota, mas que, talvez sem saber, o puzera como doido. Nem obra de feitiçaria! Estava ainda a vêl-a, no dia em que o tio João a foi pedir em companhia do filho, responder muito envergonhada e como se tivesse medo:
—Pois elle vae, senhor! Se a minha mãe leva isto em gosto, eu tambem levo. Não digo menos de isso.
Os primeiros tempos de casados, viveram-os como se não fossem d’este mundo. A bem dizer, aquillo era até felicidade de mais. Elle trabalhava sem descanço o dia inteiro, fazia o seu negocio e á tarde, quando chegava a casa, lá o estava esperando a Luiza com a ceia prompta, e extendia ao marido os braços com tanto carinho!
A desgraça foi elle ter de ir ás Furnas por causa de um negocio, que por signal não lhe rendeu nada.