Como é que a Luiza se perdeu? Como se deixou ir pelas falas do menino Diogo, filho d’aquelle sujeito que tem uma quinta muito bonita, mesmo á entrada da villa de Lagoa, á mão direita de quem vae do lado da cidade?

O marido só muito depois veiu a saber tudo.

Uma visinha, a Maria do Jacintho, é que a tinha desinquietado, e uma noite em que a Luiza foi ceiar com ella, deram-lhe uma gota de vinho a mais...

—Ah! Que se eu tivesse sabido, matava logo aquella corsaria. Se queria perder alguem, perdesse as filhas... Mas lá essas não precisaram de que a mãe as ajudasse!

E o Casimiro, depois d’esta phrase, começou a falar outra vez vagarosamente, quasi a custo.

Nem sabia dizer ao certo como chegou a descobrir tudo.

Ah! Tinham-lh’o dito. Quando entrou em casa, perguntou-o de repente á mulher. A Luiza, colhida improvisamente, poz-se a gaguejar, mais branca do que a cal da parede.

O marido deitou-lhe as mãos ao pescoço e matava-a, matava-a com certeza, se as visinhas, que acudiram á bulha, não lh’a arrancassem das mãos.

A pobrinha parecia morta. Chegou-se a pensar que elle a tinha afogado. Depois foi voltando a si, olhou para todos com os olhos muito abertos e começou a rir, a rir de tal modo, que uma das visinhas fugiu espavorida pela porta fóra e as mais sentiram arrepios de frio por todo o corpo.

A Luiza não estava boa de cabeça e poz-se a dizer que tinha morrido, que o seu anjo da guarda a levava pelo ceo dentro, mas que os outros anjos fugiam d’ella e não queriam vel-a sequer, porque ... porque... E desatava a rir e a chorar ao mesmo tempo, rasgando-se, atirando-se ao chão, quando a não seguravam com força, com muita força.