Esteve assim tres dias. O Casimiro não comeu nem dormiu durante esse tempo. Ao quarto dia mandou-a para o hospital. Na vespera, de madrugada, quando a Luiza socegava, elle esteve, vae não vae, a matal-a, sem força para resistir á tentação. Se a tivesse mais tempo ao pé de si, era capaz de fazer essa loucura.
Desmanchou a casa e no primeiro vapor foi para a Terceira.
Em Angra não fez nada. Quiz tentar fortuna na Villa da Praia e não se arrependeu da lembrança. O juiz bem sabia como elle tinha começado o seu negocio.
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Quando um dia o Casimiro estava só na loja, entrou-lhe pela porta dentro uma mulher embrulhada n’uma capa e atirou-se-lhe aos pés, chorando muito e dizendo:
—Perdoa-me, meu rico marido, perdoa-me!
O primeiro impeto do Casimiro foi agarrar n’ella e atiral-a para a rua, como um animal ruim. Mas quando, ao crescer para a Luiza, a encarou, pareceu-lhe que estava a sonhar.
Não era a mesma. Quer dizer, era a mesma, mas tão differente!... O cabello tinham-lh’o cortado no hospital, para lhe pôrem neve na cabeça. Os olhos sumiam-se no fundo d’umas covas negras como carvão. As faces, d’antes tão córadas, e o corpo tão cheio antigamente, estavam só com a pelle e o osso.
Como aquella desgraçada não tinha padecido!
Sem se levantar do chão, agarrada ás pernas do Casimiro, dizia-lhe no meio de gritos entrecortados: