No mar divisa-se muito ao largo uma vela, uma só: mas o guarda antevê perigo imminente, e mal comprehende que o deixassem alli com um unico companheiro, armados ambos de espingardas detestaveis, quando os contrabandistas pódem ser muitos, e hão de trazer por certo bellas carabinas, que nunca erram fogo e que dão tres ou quatro tiros, em quanto as armas antigas a custo disparam um só.

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A lancha, mal a noite acabou de fechar, largou de bordo carregada de tabaco, e navegou para terra cautelosamente. Os remos cahiam na agua ao mesmo tempo e rasgavam sem bulha o flanco das ondas. Dois outros maritimos, de sueste enterrado na cabeça, acompanhavam os remadores e tinham perto de si, á cautela, duas carabinas americanas. Partira da barca uma segunda lancha, que devia correr perigos eguaes, até se haver passado todo o contrabando—umas duzentas caixas de tabaco.

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O João Luiz, o guarda, hesitava em recolher-se na casa de abrigo, apezar do frio. A denuncia tinha sido clara. Perto d’alli, na pequena enseada onde o mar é quasi sempre socegado, deviam desembarcar as caixas de tabaco. Lá estavam doze guardas. Como, porém, junto da casa tambem se saltava sem difficuldade, o chefe fiscal tinha mandado guardar o posto pelo João Luiz e pelo Vicente. Não havia ninguem fóra de serviço.

De repente o João Luiz pensou no Estacio e estremeceu.

Elle bem tinha dito muita vez ao irmão que se desgraçava continuando a ser contrabandista, e que um homem casado e pae de dois filhos não deve arriscar a sua vida por um boccado de dinheiro. Palavras perdidas.

O Estacio era teimoso e não largava já o modo de vida, a que se dedicara. Parecia, a bem dizer, uma tentação. Que lhe importava o ser mal visto pela gente da alfandega, se em poucas horas ganhava o que muitos outros não faziam com mezes e mezes de trabalho ao sol e á chuva? E o caso é que o Estacio andava bem vestido, trazia a mulher e os filhos que se podiam ver, e ainda ultimamente tinha comprado uma mobilia americana, e um relogio de parede com uma caixa mais luzidia que a prata.

O proprio perigo offerecia-lhe attractivos singulares. Ás vezes, durante as noites de trabalho, elle bem pensava que podia levar, quando mal se precatasse, com uma bala e não tornar a ver a mulher nem os filhos, principalmente o mais mocinho, o Manuel, de quatro annos, tão louro e tão rosado, que parecia tal qual um menino Jesus. Mas as ideias sombrias passavam rapidas, e o Estacio scismava logo depois que poderia vir a ter um predio, muitos predios, como alguns senhores enriquecidos d’aquelle modo, que nem por isso eram menos estimados por toda a gente. Pelo contrabando ganhava o pão da sua familia e ganhava-o com risco de vida, o que já não era tão pouco!

Um dia esteve quasi a brigar com o João Luiz, por este lhe dizer que o contrabandista é um ladrão como qualquer outro, visto que rouba o Estado e vae contra as leis; mas por fim soltou uma gargalhada e respondeu-lhe que lá a roubar o Estado ninguem levava as lampas aos empregados publicos, uns mandriões que passam vida regalada e que recebem no fim de cada mez uma mão-cheia de dinheiro. Ladrões esses!