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Noite fechada, principiou a soprar um vento mais frio. O João Luiz ageitou-se melhor no capote e encolheu-se a um canto da rocha, de onde se avistava bem o mar, até á costa. Passara-se uma hora ou mais talvez, quando elle, que á força de estar attento via já tudo indistincto e como que a apagar-se, julgou sentir bulha do lado da agua. Ia para erguer-se, mas logo mudou de tenção; foi de rojo até á porta da casa e chamou em voz baixa o Vicente. Tornado ao mesmo sitio, conheceu claramente que andava perto um bote.

—Serão contrabandistas ou pescadores? murmurou ao ouvido do outro guarda, que tinha vindo postar-se ao lado d’elle, tambem com a espingarda engatilhada, para o que desse e viesse.

Mas não podiam fazer assim fogo, á falsa fé, detraz de um rochedo, como o ladrão que espera um homem e o mata para roubar. Teve este pensamento e sem importar-se com as ordens recebidas bradou:

—Quem anda ahi?

Não teve resposta. Repetiu a pergunta. O mesmo resultado. Ainda duvidoso, e para certificar-se ou intimidar os tripulantes do bote, disse com voz mais forte:

—Vocês são mudos?! Talvez uma bala os obrigue a falar.

Do bote partiram dois clarões repentinos.

Uma das balas tirou uma lasca de pedra, ao pé do Vicente.

—Ah! Grandes ladrões, esperem lá! gritou o João Luiz e ambos os guardas, com as armas descançadas na rocha, desfecharam ao mesmo tempo, quasi instinctivamente.