Approximou-se e viu um cadaver extendido na areia.

Reconheceu o Estacio.

No peito, que a camisa aberta e ainda molhada deixava a nu, havia um buraco pequeno, redondo, negro, de onde gotejava um tenue filete de sangue.

A mulher do contrabandista, de joelhos ao pé do marido, soltava gritos penetrantes, arrepellava o cabello e cahia de vez em quando desamparada sobre o cadaver, em cujo rosto se desenhava constantemente, persistentemente, a grande ancia que precedera a morte e que a morte não pudera apagar.

A infeliz cahiu finalmente n’uma atonia profunda, e sentou-se na areia, sem despegar os olhos de cima do morto, e murmurando no meio de um tremor:

—Ai! O meu rico marido! O meu rico marido!

Ao pé da mãe o Manilinho chorou em quanto a viu chorar. Depois, quando ella socegou, approximou-se do pae, poz-lhe as mãosinhas na cara, e disse a medo, muito admirado:

—Como o pae está frio! E sempre a dormir!

O guarda, horrorisado de si mesmo, pois fôra talvez a bala da sua espingarda que tinha morto o irmão, olhava para o pequenino, e ao vel-o tão innocente e tão divinal, levantou os olhos para o ceo, e perguntou porque seria que Deus, mandando á terra anjos como aquelle, os não deixava fazer milagres.