Piloto

JÁ vinha anoitecendo, quando o Sergio, de pé descalço e com a trouxa da roupa enfiada n’um cajado e pendente do hombro, saltou da estrada para a rocha.

Sobre o horisonte occidental as nuvens, em longas fitas franjadas, perderam a claridade vivissima de um quarto de hora mais cedo, e tomam uma côr plumbea esbranquiçada: pelo resto do ceo alastra-se um azul uniforme, que a diminuição de luz vae tomando mais opaco.

Convencido de que ninguem o vigiava, foi descendo a escarpa de rocha em direitura ao mar, onde se avistava, muito ao longe, um navio, com as velas pandas de vento.

—Se alguem me viu é que está o diabo, pensou o rapaz, e novamente lançou a vista pela ribanceira acima, e pela enfiada dos pincaros, que recortavam lá muito no alto, sobre o azul, o seu perfil dentado e sombrio.

Áquella hora, a estrada é pouco frequentada. Só de vez em quando lá passam tres ou quatro trabalhadores, que foram dar o dia á Horta, e que voltam para casa, a bom andar, antegostando a ceia, só de avistarem uma ou outra chaminé lançando pachorrentamente, para a limpidez do ar, uma espiral de fumo.

O Sergio, depois de olhar por muito tempo, a ponto de os objectos fixados se lhe tornarem quasi indistinctos, poisou no chão a trouxa, onde vinha toda a sua roupa e um bôlo torrado rescendendo a milhã cheirosa, e sentou-se com os pés muito perto da agua, que chapinhava brandamente no interior da pequena angra formada, n’aquelle sitio, pelos rochedos da costa sueste do Fayal.

E tempos sem fim, com os olhos fitos em o navio, que bordejava a boa distancia de terra, ficou absorto no meio d’aquelle grande silencio, esperando pela canoa, que havia de leval-o a occultas para bordo da baleeira, conforme tinha tratado com um senhor da villa.