LAURA E JOÃO

João (trazendo, n'um taboleiro, alguma roupa branca):

(Fallando de fóra): Dá licença, menina?

Laura

Alguma obra, talvez… Entre, quem é?

João (entrando):

Ora, guarde Deus aqui tudo, e vivam os homens de guerra, e as meninas engommadeiras… (reparando em Laura): Palavra de honra, que a menina merece ainda bem a continencia… (mudança de tom): Desculpe-me estes geitos de tarimba, e estas graçolas já improprias dos meus annos, menina, que não ha mal nenhum n'isto. Cá o velho 38, ha muito que esqueceu as graças do matrimonio… (com tristeza): Ha bastantes annos, que perdi a minha boa Antonia, Deus lhe falle n'alma, e um filho, ou dous, quê… (pausa: resignando-se): Deixêmos tristezas, que não pagam dividas, e vamos ao que serve… Olhe, menina, trago-lhe aqui estas camisas para engommar. O meu tenente tinha por engommadeira uma pobre velhinha, que mais lhe estragava do que engommava as camisas, mas que elle ainda assim conservava, por que é o melhor dos tenentes… Vae, se não quando, a velha adoece, e eu vou hoje procurar uma camisa engommada para dar ao meu tenente, e… vistel-a?… nem eu!… Indaguei onde haveria uma engommadeira boa, e disseram-me que perguntasse pela menina Laura, n'esta rua. Chego á porta d'esta casa, vejo uns rapasitos a jogar o peão…

Laura (interrompendo-o):

Disseram-lhe que era aqui, e entrou… Pois, sr., eu farei por substituir a velhinha o melhor que possa.

João