--Já sabia o que me diz... adivinhou-o o meu coração...

--É magnanimo o seu coração, minha senhora, e receio que d'essa extrema bondade lhe resultem sérios dissabôres... Arthur não é nobre, snr.a D. Maria, nem sequer é um filho legal!... V. exc.a fez mal em dar entrada ao sentimento que nutre por elle...

--Seu filho possue a mais verdadeira e sólida das nobrezas--a da alma--e eu amo-o!...

--E seu pae, minha senhora?!... Não sabe V. Exc.a quanto elle é orgulhoso da sua raça?!...

--Diligenciarei convencel-o e, se não o conseguir...

--Por Deus, senhora D. Maria, não pense em desobedecer a seu illustre pae!... Desgraçados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar pelas paixões! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... Não queira augmentar os remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu filho!... De joelhos lhe peço que me jure, que nunca procederá de encontro á vontade paterna...

--Quer, então, a minha morte?...

--Quero a sua salvação, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento de um dever sagrado, que póde até tornar respeitavel o seu amor por meu filho. Se V. Exc.a soffresse a maldição paterna, não haveria posição que lhe désse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice aquelle que ama... Já não quero que attenda a este velho, que a implora, e que dentro em pouco será pasto dos vermes...

--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente e respeitosa, ainda que isso me custe a vida!...

--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus é justo... Deixe-me pedir-lhe perdão de ter estranhado a sua dureza, para com o desgraçado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu criminoso proceder e os motivos de gratidão que levavam V. Exc.a á vingança... Ainda assim, peço-lhe que o deixe entregue ao castigo providencial que o pune...