--A esse respeito, é inabalavel o meu proposito, e serei tanto mais cruel, quanto mais contrariado fôr o meu affecto por Arthur... Vae de certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias do doente... Concede-me este pedido?
--Cumprirei essa obrigação, minha senhora.
Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever, foi D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra n'estes termos:
--É tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te dar a minha opinião sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a levantar d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais tranquillo possivel...
--O meu bom pae, e senhor, está livre de perigo, e ha de viver ainda muitos annos, para a nossa felicidade:
--É para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e despertar factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida sirva de exemplo á tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus erros me trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade sérias ligações, que acabaram com a morte de filhinhos que estremeci; e, já depois de casado, vi uma encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na companhia de seus paes de quem era o unico enlevo. As demandas da nossa casa, fizeram-me travar relações com o pae, o melhor jurisconsulto que então existia em Penafiel. Abusei da confiança que me deram, para me insinuar no animo da gentil e innocente criança, que em breve sentiu por mim um d'esses affectos, que são a felicidade ou a completa desgraça dos que os nutrem, segundo o bem ou o mal empregado d'elles. Amei-a... amei-a levianamente!... Quando os meus brios me fizeram conhecer a infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas já não era tempo!... Um dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura ao meu amor, e fez encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu furtivamente, e a deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braços duas gêmeas recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a minha criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas Rosa e Anna...
--Minhas irmãs!!...
--Sim, tuas irmãs... uma das quaes está morta, e a outra... perdida!...
--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa está perdida?!... Perdida, como?!...
--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e dos seus modos inteiramente oppostos á indole viril e folgasã que sempre lhe conheci. Antes da minha partida para Guimarães, procurei-a em casa dos suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianças encontraram carinhosas mães, em duas das minhas caseiras, cujos maridos tiveram a bondade de consentir na alimentação de seus verdadeiros filhos a peitos estranhos, para que as minhas filhas podessem ser amamentadas por suas esposas, e tidas como filhas d'elles por toda a povoação... Foi assim que sempre as pude ter perto de mim, ignorando, ellas e o mundo, que eram gêmeas, e que eu era seu pae...