--E é á simples ausencia de Rosa, que o meu bom pae e senhor chama perdição?!...

--Encontrei-a em Guimarães, entregue a um homem desconhecido, talvez o seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os brios da minha raça, fizeram com que mais uma vez esmagasse o coração; mas tive forças para a desprezar publicamente... Já vês, que está perdida, e bem perdida!...

E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo á narração do velho fidalgo.

D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas não vertia uma só lagrima. Tinham sido tão violentos, e seguidos, os choques que soffrêra, havia n'aquella fidalga indole tamanha reacção contra a má sorte, que a donzella, imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as dôres, e concentrava todas as suas forças para a lucta.

--Minha irmã não podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem, pisando aos pés a sua dignidade... V. Exc.a, meu respeitavel pae, deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastião da Mesquita, não sobrevivería uma hora á sua deshonra...

--Como tu és boa, minha querida Maria!...

--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiança, vêr um dia resurgir minha irmã Rosa, tão digna como eu da sua benção, e do seu affecto... Agora, se V. Exc.a o consente, dir-lhe-hei, que lamento o não se poder legitimar o nascimento de minhas irmãs, pelo enlace de V. Exc.a com a senhora que foi mãe d'ellas...

--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha querida filha... Peço-te que continues a escutar-me com a maior attenção, porque é de todo o melindre o que vou dizer-te... Para nós, os homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa gloriosa origem, a nobreza não é o echo de pomposos nomes, nem o apparato de vaidosos titulos, nem a fama de notaveis feitos: é uma questão de raça. O rei póde fazer nobres; mas os fidalgos só os faz a casta... Não ha memoria de existir na minha familia uma alliança inconveniente... Gira em nossas veias um sangue tão puro, como possuira o primeiro fidalgo d'esta raça: é uma herança, que só póde deixar de transmittir-se pela morte da ultima vergontea da nossa arvore gigante...

--Meu Deus! que pesada herança!...

--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive de sacrificar-lhe o coração... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes, que me fariam córar de pejo... Basta saberes, que não obstante a existencia de ligações graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares minha prima e tua santa mãe... Cumpri o legado da minha casta á custa de permanentes remorsos, aggravados depois com a existencia de tuas irmãs!... Vou hoje exigir de ti, minha presada filha, e unica representante do meu nome, não um sacrificio igual ao meu, porque de certo tens livre o coração, mas sim a tua palavra de receberes por esposo o distincto fidalgo que te escolhi...