--É impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho já o coração cheio de affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me...

--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim escolhido, hade acceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poderá combinar-se, sendo o teu preferido, como é de crer, um fidalgo de verdadeira raça...

Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do velho fidalgo, entrou sua mãe no quarto, acompanhada por João de Lencastre, e foi a bondosa fidalga das chaves que respondeu ao marido:

--Não sei a que raça pertence o homem que nossa filha ama, meu presado primo e senhor, mas conheço-lhe as acções, e posso affiançar-lhe sob a minha palavra de verdadeira fidalga, que ninguem as tem mais illustres... Peço ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter escutado a sua conversação com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que se havia de entre ambos passar, é certo; mas tinha maternaes razões, para não deixar só no campo esta sensivel criança...

--Então, pelo que escuto, era uma conspiração!... Entrou tambem n'ella o senhor meu primo João de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de fazer pagar caro o segredinho... Vamos lá a saber o nome do feiticeiro, que assim me roubou a melhor parte do coração de minha filha, e que teve artes para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha esse nome magico...

--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares...

--O meu afilhado?!!... Deus não quiz que V. Exc.a, snr.a D. Maria da Gloria, calcasse aos pés as venerandas cinzas de seus avós, e matasse seu pae já proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares, não póde ser... seu marido, porque... morreu!...

--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive, e sempre viverá na minha alma!... Foi gravemente ferido, mas está livre de perigo... Ha-de viver longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma alma, que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as infelicidades que talvez esperem a minha raça, conservando-se constantemente á altura dos seus nobilissimos sentimentos... Affirmo-lhe, senhor, que nunca partiu d'elle a minima palavra ou o mais insignificante gesto, que v. exc.a não podesse presencear... Amei-o, e hei-de amal-o eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um nome que deve passar immaculado á posteridade, continuando em mim uma infinda série de aristocraticas allianças!... Seja!!... V. exc.a que diz de um Lencastre para meu esposo?...

--São de boa casta os Lencastres, minha filha; mas...

--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha herança, a escolha agora é minha... Findo o lucto pela morte de minha irmã Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!...