D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficára toda entregue ao tractamento do demente.
Ao dar meia noite do quarto dia, posterior áquelle em que a fidalga donzella tão inesperadamente desenlaçára o temivel nó, que seu pae lhe lançára ao collo, gemia Sebastião da Mesquita no seu leito as dôres de sua teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via as suas filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do meio de uma turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassidão, pedirem-lhe contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de um nome que podessem usar sem pejo, que elle não podia dar-lhes; e de um futuro igual ao que esperava a sua filha legitima, que já não podia ser o d'ellas... O mais terrivel da visão, era o espectro da mulher de Leopoldo... D. Anna apparecia a seu pae, em todo o vigor da sua mocidade, criminando-o pela forçada ligação a que elle a levára, e que fôra causa da morte prematura que tivéra... O velho fidalgo, implorava o perdão de sua filha, e a victima exigia-lhe, em troca, nada menos que o completo aniquilamento da sua raça... Queria que seu pae désse por escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder casar-se com Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e dizia-lhe, pela voz da eternidade:
«Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e á qual nem foi dado depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das cruciantes dôres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso atirou ao lôdo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que fizestes morrer na flôr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se amerceie da tua alma,--escreve: «Dou voluntariamente o meu consentimento para minha filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o meu afilhado Arthur Soares. Ás portas da eternidade, prestes a comparecer perante o pae commum, reconheço que só é verdadeiramente nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de Jesus Christo==«Não faças a outrem o que não queres para ti, perdôa as injurias, e ama o teu proximo como a ti mesmo.»==Sebastião da Mesquita.»
E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter já forças para affastar de si a vingadora visão, que o aterrava, sem poder distinguir se tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia ás ordens da filha, e que estava escrevendo o que ella lhe dictava................................
Succedeu-se á visão um quebrantamento, que teve o velho fidalgo prostrado, por algumas horas, como se estivera morto.
Ao abrir os olhos, viu Sebastião da Mesquita junto da cabeceira a sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um sonho fôra, ou se tudo se passára na realidade. A bondosa senhora, aproveitou aquellas disposições do marido, para advogar a causa da filha. Pintou Arthur Soares com as mais bellas côres; revelou o que elle praticára em beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de guardar segredo, dado por D. Maria, a não obrigava a ella; descreveu com enthusiasmo o casto amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o sacrificar ao dever de esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente, sublime de eloquencia maternal.
No fim das suas expansões, olhou D. Isabel para o marido, a vêr se lhe lia nos olhos o assentimento, que os labios não tinham proferido. Não conseguiu o seu intento, porque os olhos de Sebastião da Mesquita estavam completamente fechados... O remorso fôra um poderoso auxiliar da enfermidade...
Áquella hora, já o velho fidalgo sabia se lá nas alturas Deus permitte a distincção de humanas raças...
V
TRES SOLDADOS POR AMOR
«Tomai pensar mais solido e sizudo:
O caminho segui que a honra indica;
Trabalhai pela Patria, a Patria é tudo.»