--Cale-se, demonio!...

--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e feliz noivo, com a fiel narração do estado da minha alma, que todos os dias voará em busca da que lhe é igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi elle que deu um dote á sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para esse fim, todos os seus haveres...

--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peço-lhe antes a morte como o supremo beneficio...

--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os dias ao pianno durante a sua convalescença?... É uma composição minha... Fiz-lhe tambem uma letra, que lhe não cantava, porque não estava ainda em estado de comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique sabendo que só o amor é verdadeiro poeta... Oiça:

«LAGRIMAS D'ALMA
«Vida ditosa da infancia amena,
tornada pena, que me traz delirio!...
Meu terno amante, meu poderoso rei,
por amor fiquei n'um atroz martyrio!...
Ignora o mundo que cruel mysterio,
ao cemiterio casta virgem leva!...
Nem Elle sabe quanto hei penado,
Arthur amado, que minha alma enleva!
Aqui defronte do feroz tyranno,
que deshumano duas vidas sóme,
a irmã eu vingo, o amor vingando,
Arthur amando com ardor sem nome!...
Ai! que saudade dos meus sonhos bellos,
puros anhelos, que gostosa tinha!
Ai! que tormentos o presente encerra,
na crua guerra da vingança minha!...
Vida ditosa da infancia amêna,
tornada pena, que me traz delirio!...
Meu terno amante, meu querido d'alma,
recebe a palma d'este cru martyrio!...»

O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado executor de alta justiça se compadeceria ao vêl-o! E D. Maria da Gloria estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltação, em que a mulher senhora, se torna a mais temivel das féras. Havia por muito tempo concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irmã, e fôra causa, ainda que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e por isso era terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe enchia o peito.

Um escudeiro veiu entregar uma carta á vingadora que, reconhecendo n'ella a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima alegria, praticados febrilmente em face de Leopoldo.

O conteúdo na carta, que D. Maria lêu em voz alta, era este:

«Depois que o meu velho Alvaro lançou n'este pobre coração o desespero, com a noticia da resolução que v. exc.a tomara de ser fiel á vontade de seu exc.mo pae, tenho procurado a morte no campo da batalha, porque só ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber que outro homem é o seu esposo... Mas superior á minha vontade está o dedo de um Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me cérca de espectaculos insinuantes!... Poderei vêr n'isto uma esperança?...

«Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel, deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe interessa. Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven sargento, sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que era a sombra do meu camarada, o seu bondoso parente João de Lencastre. Não fizemos caso da assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu tenente, porque ambos nós tinhamos sérias preoccupações, que nos não davam tempo a reparos curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando já se ouviam por todo o campo os toques de cessar fogo, e de retirada das forças combatentes, estavamos todos tres cercados por soldados da cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua pistola ao peito de João de Lencastre. Rapido, porém, como se fôra uma frecha, o intrépido sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e recebe no peito o ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas restavam no campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do sargento: quem imagina v. exc.a que descobrimos debaixo de um tal disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc.ma irmã!...