--De mim, que só fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz n'um peito desleal, causou-me estragos, que só a prima teve o poder de reparar... e bem conhece que não são de assassino estes soffrimentos...
--A ferida que fez n'um peito desleal, diz o primo?!... Illude-se, e é chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.a cravou ás punhaladas, com este villão instrumento que guardei para o sangue que o tinge me animar á vingança, o unico peito em que batia um coração que lhe era affecto... Minha irmã Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro amor...
--Não brinque, prima, que me tortura!...
--Quer as provas?... Vá ouvindo... Passavamos aqui uma existencia relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu idolatrado Arthur, e minha irmã Anna a lamentar-se de não ser comprehendida por V. Exc.a no seu immenso affecto, quando veiu enluctar-nos uma carta de nosso pae, que me participava a resolução de casar-me em Guimarães... Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de não poder empregar sequer um raciocinio... A minha querida irmã, que era o symbolo da dedicação, imaginou conjurar a tempestade que ameaçava o meu futuro, chamando aqui o meu muito amado Arthur... Comprehende?... Foi essa carta fatal, roubada no campo da gloria ao meu idolo por um soldado do seu commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue innocente, tornado ferrugem no seu punhal!...
--Misericordia, senhora, que me mata!...
--Não hade morrer, senhor meu noivo, em quanto não tiver bem esgotado o calix de amargura, que outros já tragaram por sua causa...
--É então o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como é que deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente irmã?!... Eu torno a enlouquecer, de certo!...
--Tambem não hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu esposo... Socegue, que o aguarda uma existencia singular...
--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! Não me dirá o logar que occupo no seu coração?...
--O meu coração está cheio, hade estal-o sempre, do unico homem que eu amo, e do qual me separa a fatalidade... Não hade passar um minuto da minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e saudosas á memoria de Arthur Soares, do amor da minha infancia, da alma mais nobre que existe na terra, e que só no céu me será concedido unir á minha... Que importa isto ao meu futuro esposo, ao viuvo de minha irmã assassinada!...