--Talvez a perda da nossa autonomia... É possivel. Mas as grandes transformações sociaes, snr. Sebastião da Mesquita, não se operam sem abalos mais ou menos fortes. Consinta-me V. Exc.a, que ainda confie no futuro. Entre os vultos liberaes, ha caracteres nobilissimos, completamente devotados á causa nacional. Se conseguirem aproximar d'elles, aos altos cargos da governação publica, todos os homens competentes sem distincções partidarias, póde a náo do estado tomar norte, e trazer-nos éras de paz e de prosperidade.
Foi n'esta altura interrompido o dialogo por um escudeiro de habito de Christo, que vinha dar parte a Sebastião da Mesquita de que se achava o terreiro coberto de povo, e á sua frente o Exc.mo Leopoldo de Moraes Lencastre, do Marco de Canavezes, que pedia licença para entrar.
Antes de dizermos a ordem que Sebastião da Mesquita deu ao escudeiro, lembraremos de passagem duas cousas: primeira, que não sirva de prejuizo ao cofre nacional, pela falha de direitos de mercê, a noticia de haver escudeiros com habito de Christo, porque é facto averiguado que os houve, e não sabemos se ainda existem alguns. Eram homens de merecimento, a maioria d'elles soldados companheiros de seus amos, e de provado valor e lealdade.
Segunda: que na rapida descripção que fizermos da guerra civil contemporanea, seremos completamente isentos de sympathias pelos partidos ou grupos que dividem os politicos de Portugal. Respeitamos todos os homens, não temos odios nem invejas, e ajuizamos das cousas com o justo criterio da imparcialidade.
Sebastião da Mesquita, levantou-se e disse ao escudeiro, que mandasse entrar toda a gente. D. Isabel, veiu á sala um pouco perturbada, e perguntou ao esposo, para dizer alguma cousa, se queria que fosse servido o chá. Sebastião da Mesquita, respondeu placidamente, que era magnifica occasião de beber agua quando estivesse o povo na sala, porque se viesse com más tenções fugiria d'ella como de sua figadal inimiga... Via-se que Sebastião da Mesquita, estava ou queria mostrar-se tranquillo e jovial.
D. Isabel foi tomar logar no centro das tres donzellas, que ficaram mudas de espanto pela ordem que ouviram dar, e não de todo livres de receio, embora tivessem sempre observado no povo extrema consideração pelo velho fidalgo. Conservaram-se com tudo impassiveis, como estavam costumados a proceder todos os familiares do fidalgo, quando este manifestava a sua vontade.
Arthur Soares, collocou-se á esquerda do padrinho com tão natural aspecto, como se fôra a continuar a conversa interrompida.
O escudeiro, entrou de novo na sala com uma grande salva de prata e sobre ella uma espada antiga, com cinturão, que, sem dizer palavra, offereceu a Sebastião da Mesquita. O velho fez repentinamente um gesto de espanto, que o escudeiro presenceou sem pestanejar; em seguida sorriu-se, como se disséra--lembraste bem,--e pendurou a espada á cinta, com a pericia propria de um antigo official de cavallaria. Logo depois, era annunciado, e dava entrada na sala, o Exc.mo Leopoldo de Moraes Lencastre, que foi recebido friamente: nas tres donzellas, é que se poderia notar a apparição d'um tal ou qual rubor intraduzivel para os circumstantes, ao conhecerem o fidalgo moço.
--Sou o mais dedicado servo de V. Exc.a meu presadissimo primo e senhor da Mesquita;--principiou por dizer o fidalgo Leopoldo, acompanhando estas palavras de mesura palaciana, a que Sebastião da Mesquita correspondeu com um ligeiro curvar de cabeça.
--Tenho a honra de me dirigir a V. Exc.a em nome da soberania popular, para que se digne acceitar o commando dos bravos camponezes da comarca, que na cidade acabam de reduzir a cinzas os vexatorios papeis, que um ministerio obnoxio, pelos actos despoticos que pratíca, semeára pelo reino. A provincia do Minho, ao grito da heroina «Maria da Fonte,» está toda revolucionada; e dentro em pouco chegarão os gritos do povo aos ouvidos da corôa, que deve fazer justiça immediata, como o requerem as anómalas condições em que se acha o systema constitucional. Ninguem mais competente do que V. Exc.a, meu nobre primo e snr., para conduzir o povo até ao paço; logar em que os nossos nobilissimos antepassados já tiveram a honra de sustentar na presença da magestade os direitos da nação, com a coragem revelada n'aquellas memoraveis palavras, que a historia legou ás futuras gerações:--«Se não, escolheremos outro rei que melhor saiba governar e dirigir a briosa nação portugueza!»--Aguardo as determinações de V. Exc.a, que fielmente serão communicadas aos que por ellas esperam nos proximos salões deste palacio; bons lavradores que me pediram fosse eu o interprete dos sentimentos d'elles perante V. Exc.a Não consenti que entrassem n'esta sala, para deixar tranquillas as damas, primas e senhoras minhas, ás quaes só agora tenho occasião de tributar o mais respeitoso dos meus cultos e a mais submissa das minhas homenagens, pedindo-lhes humildemente, que se dignem perdoar o não ter eu praticado desde logo este dever, em attenção a que estava pouco senhor de mim com a delicada e obrigatoria missão de que fui encarregado.