Quando o fidalgo do Marco deu assim por terminado o aranzel, acenou Sebastião da Mesquita ao escudeiro, que comprehendendo seu nobre senhor, abriu de par em par as portas e reposteiros, dando livre accesso ao povo, que estava agrupado pelos immediatos aposentos. Foram pouco e pouco, como possuidos de acanhamento, entrando na sala os populares, activos e laboriosos lavradores, sempre cortezes como todos os habitantes do Minho, mas faceis de inflammar com perfidas insinuações, principalmente ácerca do perigo que possa correr a religião que professam, e o lar que possuem.
Eram variados os trajes d'aquelles homens amotinados, e variadissimas as armas de que cada um estava munido: ainda assim, predominavam os fatos domingueiros a que é obrigada a casaqueta de botões amarellos, e as espingardas de fechos com pederneira. Todos entravam desbarretados e convenientes. Sebastião da Mesquita ia provocando a entrada com as animadoras palavras:--«Vinde, vinde, bons homens.» E assim que todos o podiam ouvir, virou-se para o mensageiro, e fallou n'estes termos:
--Ouvi com a devida attenção e serenidade, o que teve a bondade de dizer-me meu primo e snr. de Lencastre. Respondendo ao povo, que me escuta, respondo tambem a v. ex.a Esta espada, que já serviu a nossos avós, para emprezas importantes em prol d'estes reinos, e sempre em defeza do sagrado solo da patria,--nunca será por mim empunhada contra portuguezes e irmãos. Fui soldado da independencia, e não quero outra gloria. Quem deseja conduzir o povo pelo caminho da revolta contra os poderes bem ou mal constituidos, póde ter ambições a saciar, mas falta-lhe bem dentro n'alma a nobreza de sentimentos, unica que póde distinguir da massa geral dos homens, os fidalgos e as pessoas illustradas.
«Porque os principes, ou aquelles que governam o reino, abusem do seu poder, não é rasão para que os povos abusem dos seus direitos. Os homens prudentes, devem conhecer os demais. Aos não poucos annos que tenho, devo eu o não poder ser facilmente enganado... Não se queria o meu braço, não, que já mal póde com a espada... O que se vinha aqui buscar era o bom nome do velho, para servir de joguete a pequenas ambições... Não precisa o snr. meu primo Leopoldo d'este fraco auxilio. As tendencias que manifesta para tribuno popular, devem leval-o rapidamente ao parlamento, que é o caminho aberto ás modernas glorias... Seja feliz, e deixe-me descer socegadamente á sepultura. E vós, homens do trabalho, recolhei-vos ao seio de vossas familias, que devem soffrer com os vossos desvarios, e desconfiai sempre dos pareceres que vos levam á porta os voluntarios zeladores dos vossos interesses... Lembrai-vos, que não se devem despresar as lições da velhice, que são as da experiencia. Minha prima e presada esposa, digne-se v. ex.a mandar abrir a adega, para que esta boa gente mate a sêde. Maria, as tuas interessantes discipulas ficam esta noite a fazer-te companhia, para assim escaparem a algum discurso dos campeões de praça... Snr. Arthur Soares e meu bom amigo, queira ter a summa bondade de acompanhar este bom povo até ao terreiro, e vêr se póde com a sua eloquencia acabar de convencêl-o da verdade encerrada nas minhas trémulas palavras. Meu primo, querendo v. ex.a dar-nos a honra da sua presença, logo que voltem minha mulher e o snr. Arthur Soares mando servir o chá.
--Agradeço, mas não posso acceitar nem conservar-me aqui mais tempo depois do que v. ex.a acaba de pronunciar...
--N'esse caso,--interrompeu Sebastião da Mesquita--peço as ordens de v. ex.a... João, acompanha meu primo até ao portal.
Ao receber a ordem do amo, o escudeiro foi postar-se atraz de Leopoldo. Este, fulo de cólera açamada, virou a espalda e sahiu com o povo, que escutára o fidalgo com todo o respeito e silenciosa attenção, e que foi tão rapido na sahida como morôso havia sido na entrada.
Logo que foi evacuada a sala segundo as ordens de Sebastião da Mesquita, caminhou este até ao pé das donzellas, pôz a mão direita sobre o hombro esquerdo da filha, encarou-a por longo tempo com visivel commoção, e disse-lhe com lagrimas na voz: Deos te dê melhor sorte, Maria!... Depois, cingiu Rosa e Anna com o braço esquerdo, e disse a todas com igual ternura: Deos vos proteja, minhas filhas!...
III
AO LUAR
«Na minha terra, uma aldeia,
Por noites de lua cheia,
É tão bella! é tão feliz!...»
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