(João de Lemos--Cancioneiro.)

Leopoldo de Moraes Lencastre, filho segundo da nobre familia dos alcaides móres de Coruche, achava-se--por fallecimento do primogenito--na posse do morgadio.

Era importante a casa de seus maiores, dispersa por quasi todo o reino. Leopoldo administrava mal e esbanjava muito, sem gastar, ainda assim, mais que o rendimento.

Corriam differentes versões ácerca da morte inesperada do morgado, que todas formavam um pessimo conceito do herdeiro forçado d'aquella nobre casa. No entanto, Leopoldo mostrára-se angustiado com a morte do irmão, e parecia gosar a herança com a tranquilidade de espirito propria dos innocentes. Deixára Coimbra quando frequentava o quarto anno da faculdade de direito, para tomar conta da casa, e voltára mais tarde a concluir a formatura.

Dotado de um caracter ardente, Leopoldo, era ambicioso de glorias, que sonhava de um modo unico. Sacrificava todos os bons sentimentos, á satisfação do amor proprio. Na consciencia d'elle, havia só logar para a sua personalidade. Nunca encontrou espelho que lhe reflectisse outro objecto, além da sua figura.

O mundo era para o fidalgo doutor apenas um palco, destinado a receber-lhe as scenas comicas ou tragicas; e os espectadores estavam magnetisados, para só attentarem n'elle e nas suas acções. Não havia torpeza que lhe embargasse o caminho do Capitolio, nem falta que o fizesse exitar no trajecto. Mettia algumas vezes na gaveta das conveniencias a sua altivez, para de lá sahir depois mais furiosa, alcançados que fossem os premeditados fins. Era mais insaciavel com o seu orgulho, do que um miseravel com as suas necessidades: os cuidados, agitações e pesares communs a todo o homem quando se dilata a esphera dos prazeres, affeições e sentimentos, só accommettiam o moço doutor na hora em que se convencia de que o mundo desviava os olhos das suas façanhas.

Leopoldo era physicamente favorecido da natureza, e suppríra, com o estudo, o que lhe faltava em talentos. Foi-lhe facil estabelecer escóla sua, e rodear-se de manequins, que serviam magnificamente aos seus desejos. É crescido o numero de parasitas que, algumas vezes, se prestam para caudatarios, e que são sempre tubas, ainda que rouquenhas, de famas adrede. E não se verificava, com relação a Leopoldo, o preceito de ser a lisonja moeda falsa que empobrece quem a recebe; muito ao avêsso ia logrando insinuar-se na opinião publica, que foi, e é, e ha de sempre ser, a tonta filha das apparencias.

Quando Arthur Soares, encarregado pelo fidalgo Mesquita de fallar ao povo, estava desempenhando a commissão, foi interrompido por Leopoldo, que pretendeu ridiculisal-o. Deu isto causa a uma discussão entre os dous, algum tanto animada, que acabou pelo povo ir dispersando, e Arthur Soares deixar bruscamente o adversario fidalgo, entrando de novo no palacio de Sebastião da Mesquita, com o qual passou algumas horas mais.

Na sahida para a residencia de seu thio reitor, ao passar por baixo das janellas do quarto de D. Maria, teve Arthur Soares de prestar attenção ao chamado da fidalga senhora, que, com as suas discipulas, estava gosando o luar e a belleza da noite, e lhe perguntára como havia conseguido que o povo recolhesse a suas casas.

--Tudo consegue a prudencia, minha senhora, quando não é capa de occultos interesses. O povo estava illudido por palavras pomposas que eu expliquei em linguagem chã, fazendo-lhe conhecer o sentido interesseiro de quem lh'as havia dito: convenceu-se e tranquillisou-se. O fidalgo, primo de V. Exc.a, é que se não convenceu nem me agradece... Creio que adquiri n'elle um verdadeiro inimigo.