Os desvélos do pae e da amante, auxiliados pela constituição vigorosa de Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. Já convalescente, tomou um dia as mãos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com lagrimas na voz, e nos olhos:

--Porque me não deixaram morrer?!... Acabava tudo, e não os faria soffrer mais...

--Quer-me parecer, Arthur, que vão muito longe os teus brios, e que talvez degenerem em orgulho condemnavel... Ambos nós lêmos no teu intimo; eu, porque sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda além do que é permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E não será a manifestação de um tal desejo grave offensa á Divina Providencia, que tão prodiga tem sido em beneficiar-te?... Ou quererás tu tornar-me mais pungentes os remorsos, por te haver dado uma existencia a que chamas infeliz?... Mas fica certo, filho, que a tua ultima hora seria a minha, e que tu, deixando a vida, fugias á possivel felicidade n'este mundo, em quanto que eu, se um Deus misericordioso perdoar os meus peccados, encontro na morte o supremo bem!...

--Como são sevéras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o coração, que os seus sentimentos são os meus, e que, no meu caso, seria em tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convicção, está no silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples enunciado da sua vontade seria para mim uma ordem terminante... Porque me não ordena o que devo fazer?...

--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha auctoridade de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que não póde ainda entrar em conversações animadas... Sim, agora o mais bonito é isso!... Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e não tenham pena de mim, que os heide aturar doentinhos!...

--És o melhor dos anjos, minha querida Maria!...

--Nem sou anjo, nem sou ainda sua, seu mau... Isso hade acontecer, quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O snr. Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado de attenções e de respeitos, podendo dispensar protecção, e não tendo já que receiar dos maus juizos que o mundo fórma quando vê ligações entre duas pessoas que não pesam do mesmo modo na balança das conveniencias... Eu era sempre a mesma rapariga aldeã, que V. Exc.a se dignava elevar até á sua altura, e que caminhava para a capella tão contente por o meu esposo ser um potentado, como o estaria se elle fosse um simples operario...

--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento...

--Está fixada, já lhe disse... Esperemos a realisação do meu sonho, que me diz o coração, que não havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma palavra, que te faz mal fallar...

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VIAGEM DA RAINHA