«Uns homens ha, que, na paixão ardente,
Immolam tudo seu,
Menos a propria estima; e, felizmente,
D'esses homens sou eu:
Sou, que de tudo o que no mundo prézo,
Prézo mais não mer'cer o meu desprezo.»
[João de Lemos--Cancioneiro]
Uma d'estas revoluções moraes, que as grandes crises produzem no espirito humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama imaginações prodigas, porque lhe é vedado o entendel-as. Amara D. Maria da Gloria, que era rica e nobre, como se ella fôra a mais desprotegida camponeza. Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moça, e nem por sombras o deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. Tão prudente como gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de uma declaração: era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo na alma, para não se exporem aos falsos juizos do vulgo, nem serem menos presados pelo alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma semelhante á de Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor, seguira seus naturaes impulsos com feminil precipitação.
Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a par do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores. Os acontecimentos, porém, precipitaram-se com tal velocidade, que, até ao momento do desenlace, não teve o nosso heroe o tempo material preciso para cogitar n'um procedimento digno de si.
Agora, que só da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de homem de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria não podia elle entrar com uma porção, se não igual, aproximada das conveniencias sociaes que ia receber. Se ao menos podésse apresentar as dragonas e condecorações ganhas no campo da batalha, seria já alguma coisa, e fôra provavel que acabasse a sua hesitação; mas o governo interino que lh'as concedera deixara de existir, e o de sua magestade não lh'as garantia.
Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes, que são o apanagio de villões interesses, trazia-lhe a par a recordação dos tempos em que lhe soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu affecto pela esperança de se tornar distincto no campo da honra, e poder assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo soffrer tomava proporções assustadoras, que ameaçavam queimar-lhe ao fogo do coração os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado.
Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os communicarem, e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem commum.
As forças physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento de Arthur.
D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente ás pessoas do seu sexo, educação e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por um fidalgo tacto, que só ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as conversações do terreno em que poderiam declinar para expansões perigosas, esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio de querer accelerar o desfecho que tão grato era ao seu coração.
Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenções do seu mundo, D. Maria não largava a cabeceira do seu querido enfermo. Nas crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga moça a coragem de mostrar-se risonha na presença do seu idolo, para dar, ás occultas, largas ao pranto, e á dôr que a definhava.