[17] Quando revemos as provas d'este capitulo, annunciam os periodicos a realisação de um emprestimo nacional, nas mais vantajosas condições para o thesouro, de reis quarenta e tres mil oito centos e oito contos--tres mil oito centos e oito a maior do que o governo solicitava para a consolidação da divida fluctuante! É geral o contentamento, esperançosa, e proxima, a organisação das nossas finanças, e notavel o credito que o emprestimo nos faz ter nas principaes bolças da Europa. Outros factos, igualmente importantes, em bem do paiz, estão succedendo sob a gerencia de um governo composto das reliquias d'aquelle que louvamos.
[18] O snr. João de Lemos, publicou, por occasião da morte da snr.a D. Maria II, a conhecida poesia--O Funeral e a pomba--da qual consignaremos aqui estes edificantes versos:
Soldados, que ha vinte annos
Com esforços sobre humanos
Batalhaes por vossa fé,
Soldados, eia, de pé!
Respeitem-se aquellas mágoas,
E do nosso pranto as agoas
Lavem d'odio o coração;
Não ha odios d'este lado,
Nem se deshonra um soldado,
Quando abraça seu irmão.
Ponham-se treguas á guerra,
E ninguém manche esta terra
Ao pé de funérea luz;
Soldados, olhai a cruz!
Demos pranto a quem prantêa,
Demos dôr á dôr alheia,
Nos dois campos lucto egual!
Nenhum, nenhum se envilece,
Unidos na mesma prece,
Junto á loisa sepulchral.
Solemne melancolia,
Seja n'hora da agonia
Nosso tributo cortez;
Que o tomem, que é portuguez!
Portuguez d'aquelles peitos,
Por tantos annos affeitos
Na lealdade a soffrer;
Portuguez que vem das eras,
D'aquellas crenças sinceras
D'antes quebrar que torcer.
Que o tomem; e nós, soldados,
Ao vêl-os tão consternados,
Respeitemos-lhe a sua fé;
Amigos, eia, de pé!
Era o seu chefe, e bandeira,
Diziam-n'a companheira
De infortunio e proscripção;
Comprehendemos, pois, seu grito,
Nós, soldados do Proscripto,
Vinte annos gemendo em vão!
A cada um sua crença e dôres,
Cada qual estreme as côres
Do pendão que traz por si;
Todo branco, é o nosso aqui.
Mas, se d'elle voz sagrada
Nos manda, por gloria herdada,
Ou morrer ou triumphar,
Tambem no alto do Calvario
Outro estandarte, um sudario,
Manda os tristes consolar.
Porque é de arraial opposto,
Não córa o tributo o rôsto,
A quem o toma ou quem dá;
Soldados, lucto de cá!
É tributo á monarchia,
Por dois campos n'um só dia,
Cada qual por sua lei;
Um faz honras á Rainha,
Outro á Princesa, sobrinha
D'aquelle que jurou Rei!»
EPILOGO
EPILOGO
São decorridos cinco annos, depois do casamento de Arthur com D. Maria da Gloria, e estamos no dia do 4.º anniversario natalicio de uma interessante menina, que é a filha estremecida de tão venturoso par.
O filho de Rosa e de João de Lencastre, dous annos mais velho, dá-se ares de protector da priminha, que cérca de brinquedos e caricias infantis. D. Isabel prepara toda jubilosa a festa dos annos da sua netinha. João de Lencastre está narrando á mulher o que presenceára em casa do irmão, d'onde recolhia de o haver visitado, triste pelo definhamento em que vira Leopoldo. D. Maria e Arthur estão de mãos dadas contemplando as crianças, e trocando phrases embalsemadas de felicidade.
É de bem diverso effeito, a scena que vamos presencear na egreja parochial da freguezia. O padre Alvaro, envelhecido e quebrantado em extremo, está ajoelhado sobre a campa, que encerra os restos mortaes da mãe de Arthur, e lê esta passagem da Biblia:
«Disseram-lhe seus discipulos: Se tal é a condição de um homem a respeito de sua mulher, não convém casar-se. Ao que elle respondeu: Nem todos são capazes d'esta resolução, mas sómente aquelles, a quem isto foi dado. Porque ha uns castrados que já assim nasceram; ha outros castrados a quem outros homens fizeram taes; e ha outros castrados, que a si mesmos se castraram por amor do Reino dos Céus. O que é capaz de comprehender isto, comprehenda-o.»
A leitura d'estas palavras, que são, para a egreja catholica, a desculpa do padre celibatario, fez cahir o livro das mãos de Alvaro, e obrigou-o a dizer, em consternadora exclamação: