--Oh meu bom Deus! quando terão fim os meus remorsos?!... Quando poderei deixar a vida esperançado no vosso perdão, oh Senhor Misericordioso?!...

Lançou em seguida os olhos á Biblia, que no chão ficára aberta, e passados poucos momentos, empregados em lêr o que a Providencia lhe deparou com a queda do livro santo, estava o padre Alvaro radiante de alegria, erguendo as mãos e os olhos ao Céu em acção de graça!... As palavras que causaram a repentina mudança no attribulado espirito do bondoso padre, foram estas:

«Digo-vos que assim haverá maior jubilo no Céu, sobre um peccador que fizer penitencia, que sobre noventa e nove justos, que não hão de mister penitencia.»

Entrou n'aquella occasião na egreja toda a nova familia de Arthur, incluindo as creancinhas e a velha fidalga D. Isabel, que vinha buscar o padre para a festa dos annos.

Findo o alegre jantar, desceram todos ao jardim, á excepção de D. Isabel. Este local, é o mesmo em que se deram os acontecimentos descriptos no capitulo--Ao luar--da primeira parte d'esta obra, apenas melhorado com mais algumas plantações de arvores e flores, e commodos assentos.

Estava toda a familia assentada em frente das janellas do palacio; o padre Alvaro no centro com as crianças sobre os joelhos; D. Maria á direita d'elle, e junto d'esta João de Lencastre; e D. Rosa á esquerda, e junto d'ella Arthur. Umas pombas domesticas, saltavam do chão ao collo das criancinhas a depenicarem-lhes os dôces que tinham nas mãos.

As alegres expansões d'esta feliz familia, foram interrompidas pela presença de um escudeiro, que a apresentava, n'uma salva, a D. Maria uma carta tarjada de preto.

Todos se olharam receiosos e contristados, sem que nenhum d'elles se resolvesse a lançar mão da agoureira carta. Tomou-a o padre Alvaro, e pediu licença a D. Maria para abril-a, e lêr o seu conteúdo em voz alta, o que todos estimaram de ouvir, porque assim eram poupados ao desgosto da primeira impressão. A carta era do punho de D. Anna, e resava assim:

«Minha boa Maria e presada irmã:

«Estou viuva!... Nem os carinhos da minha profunda e constante adoração; nem a linguagem caridosa das tuas cartas, em que chegaste a pedir indulto para culpas que não eram tuas; nem os esforços, em fim, dos homens da sciencia medica, poderam roubar á morte o meu desditoso Leopoldo!... Mataram n'o os remorsos de não ter conhecido e compensado a tempo o meu immenso affecto!... Vê, por isto, quanto eu soffro, Maria!... Ha cerca de seis annos que todos os meus cuidados se resumiam na conservação da vida do unico homem que amei!... Perdi-o!... perdi-o para sempre, minha querida irmã!... E elle era bom, Maria!... Os arrebatamentos do seu genio terminavam por um terrivel soffrimento, com o qual sobejamente se castigava do mal causado aos outros!... Era tão bom, que o mataram uns mal entendidos remorsos!... E eu vivo ainda, minha irmã!...