«D'aqui a poucas horas, fechar-se-hão sobre mim as portas de um austero convento,[19] onde possa chorar e orar por meu marido, e onde quero repousar eternamente, quando Deus fôr servido livrar-me do fardo da vida...
«Teu marido que venha tomar conta d'esta casa, que tudo lhe pertence por minha disposição, como eu tambem a herdei pela de Leopoldo.
«Abraça a Rosa por mim; lembra-me a todos; sede felizes, e diligenciae evitar a vossos filhos, que de toda a alma abençôo, o remorso de qualquer falta, porque o remorso mata!...
«Adeus!
Tua infeliz irmã,
Anna.»
Finda a leitura, que o padre fez commovidissimo, assomou a uma das varandas do palacio o respeitavel vulto de D. Isabel de Abendanho, trazendo atraz de si meia duzia de pessoas das mais necessitadas da freguezia, todas uniformemente vestidas de novo, e, rindo com a tranquillidade de uma santa, disse para a familia:
--Não esperavam, que a velha fosse capaz de preparar-lhes uma surpreza, no dia da festa da minha neta?... Pois saberão, meus crianças, que tive segundo jantar na companhia d'estes bons filhos adoptivos, que aqui lhes apresento todos pimpões, com os fatos novos de que a minha netinha lhes fez presente... Perdão, senhor reitor... O nome de criança foi uma brincadeira minha, que nunca podia entender-se com o respeitavel senhor padre Alvaro...
O pae de Arthur, havia-se repentinamente tornado cadaverico! Apertara nas suas as mãos dos pequeninos que tinha no collo, inclinara a cabeça sobre o encôsto do assento, erguera os olhos ao céu, e balbuciara estas palavras:
--O remorso mata... mas Deus perdôa aos que morrem penitentes... Arthur... meus filhos... até logo!......