Orgulha-me a fineza de um artista, que no Reglamento de exposiciones nacionales de bellas artes, publicado em Madrid no anno de 1871, foi assim classificado: «Molarinho (D. José Arnaldo Nogueira), natural de Guimarães, discipulo del snr. T. M. de Almeida Furtado, caballero de la Orden de Cristo, medallas de plata en las Exposiciones Nacionales de 1857, 1862 y 1863.» Que no mesmo anno de 1871, na exposição de concurso das bellas artes em Madrid, obteve o segundo premio; que tem recebido do estrangeiro inequivocas demonstrações do grande apreço em que por lá é tido o seu talento, e que mais util ainda teria sido á patria, se os poderes publicos d'este nosso Portugal não tivessem o infeliz séstro de ignorarem a morada do verdadeiro merito.
Para o nosso primeiro gravador de medalhas, ainda não houve um cantinho na casa da moeda! Se elle não é influente eleitoral!...
De sorte que o artista distincto, e pobre, n'este paiz, tem que empregar o seu genio em obrinhas que lhe dêem o pão de todos os dias!
Queriam que o snr. Molarinho concorresse á exposição de Vienna d'Austria?[20]
Os seis mezes que s. s.a havia de gastar n'uma obra que lhe daria nome europeu, e gloria a Portugal, foram passados a gravar colleiras para adorno dos sabujos de pessoas indinheiradas, que para tal fim procuram o notavel artista, como algures escreveu um nosso espirituoso narrador.
Perdão... Não façamos injustiças. Nem todos os ministerios se esqueceram do snr. Molarinho: houve um que o emparelhou com qualquer regedor de parochia... O snr. Molarinho é cavalleiro do habito de Christo: não morre de fome.
Porto, 27 de agosto de 1873.
Miguel J. T. Mascarenhas.
[20] O snr. Molarinho, foi oficialmente convidado de Vienna d'Austria para entrar no concurso das medalhas para os premios da exposição: não lhe foi possivel acceder. Os trabalhos seus, que lá mandou, foram premiados.