--Eu, menina, não desejo n'este momento ter interpretes dos meus sentimentos... Subiu-me calor ás faces, porque... estava um tanto indisposta...
--É já tarde, minhas senhoras, e eu vou até á residencia de meu thio, onde espero conciliar o sômno, vendo o soberbo luar d'esta lindissima noite, atravez dos vidros da janella do meu pequeno quarto. V. Exc.a, snr.a D. Maria, continue a gosar, em companhia das suas innocentes amigas, o arôma das flôres do jardim e do pomar, a fagueira brisa d'esta bellissima noite de primavera, o suave cantico da voadôra cotovia e da poetica philomella, o murmurio da agua nos proximos tanques, a magestosa pallidez da lua cheia, que tudo isto ajuda a nutrir a imaginação com illusões nascidas da candidez da alma, muito mais carecida de taes alimentos do que a fria razão.
--Quer o snr. Arthur Soares dizer-me com esse trecho poetico, que não gostou de que eu interrompesse a Rosinha?... Apreciava bem mais ouvir a franqueza de que sabe usar, do que escutar-lhe um subterfugio, aliás lindissimo na fórma... Eu, digo-lhe abertamente, snr. Soares, porque não tenho motivos para occultal-o, que o meu pejo procedeu de haver ha muito reconhecido em meu primo Lencastre, qualidades e sentimentos improprios de um cavalheiro. Magôa-me bastante ter de fallar assim de um fidalgo, que é meu parente; mas não quero que os meus gestos sejam mal avaliados, principalmente por V. S.a, que é um amigo d'esta casa, a quem meu pae devéras estima.
--Não me accuso, snr.a D. Maria, de ter provocado a irritabilidade nervosa, que me parece descobrir em V. Exc.a, porque me diz a alma que eu era incapaz de lhe promover o mais leve desgosto. O dia em que eu me conhecesse origem de qualquer dissabor, para a familia do snr. Sebastião da Mesquita--póde V. Exc.a crêl-o--seria o ultimo da minha vida.
--O que disse, não foi queixa, snr. Arthur Soares. Quiz apenas ser eu, a dizer a V. S.a os meus sentimentos... Se perdeu com isto de ouvir a narrativa com a natural eloquencia e graça de que dispõe a minha amiga Rosa, deixo-os agora á vontade, para...
--Sou eu que me devo retirar, snr.a D. Maria... E retiro-me com a convicção bem formada de que nunca mais as minhas palavras, dirigidas ao snr. Arthur Soares, poderão melindrar a minha presada senhora, amiga e mestra, porque hei de medital-as muito...
--Ficam ambas, com certeza, porque uma e outra se encontram empolgadas pelo gavião!...--Disse uma voz sahida do pomar, que todos reconheceram ser a do snr. de Lencastre.
Facilmente se avalia a commoção em sentidos diversos, que soffreram todos os actores d'esta scena, ao conhecerem o novo e audacioso interlocutor, sahido de entre as arvores do pomar que o occultavam, e collocando-se sobranceiro á parede do jardim, em frente da janella occupada pelas tres donzellas, ficando alguns metros separado de Arthur Soares.
--Não me surprehende, continuou a dizer o fidalgo moço, dirigindo-se para a janella,--que a snr.a Rosa concebesse um arranjinho de vida commodo, fazendo presente do seu coração e de seus volumosos espiritos ao snr. Arthur Soares; e que este eminente litterato tome posse de tudo, para cada vez dar maior brilho ao seu verniz de urbanidade e brios... Agora, o que devéras me faz descrêr de quantas virtudes podem honrar o coração humano, é o vêr que a snr.a D. Maria da Gloria esqueceu rapidamente a distancia que a separa de um plebeu, embora um tanto polido, que nunca se atreveria a pensar sequer na honra de conseguir, á custa dos maiores sacrificios, o que V. Exc.a tão de barato lhe concede!... Manifestar ciumes ao snr. Soares, minha nobre prima, é declarar-lhe que o ama!...
--Eu já sabia, snr. de Lencastre, que uma certa grosseria de habitos formava a base do seu codigo cortezão; mas nunca me persuadi que V. Exc.a quizesse lá escripta a villania de um procedimento como o que acaba de ter! Os nossos lacaios, se alguma vez são apanhados a devassar alheias causas, fogem espavoridos da feia acção que commetteram... O meu nobre primo afidalga-se com um manifesto de curioso, e delator das vidas alheias, abrindo com chave de mui duro e enferrujado ferro, o coração de uma senhora, que lhe não deu o direito de se tornar seu vigia, e muito menos seu mentor. Só a meu pae quero dar conta dos meus procedimentos, e nenhum receio me dominava se o santo velho fosse um dos espectadores d'esta scena, só pouco edificante desde que V. Exc.a entrou n'ella... Peço ao snr. Arthur Soares, que seja completamente alheio ás palavras e acções do snr. meu primo; peço-lho pela amisade que tem á minha familia.