Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de pretenderem sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas, tiradas dos incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar verdadeira interpretação.
O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos, por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos dos vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da extincção d'aquelle convento.
É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens.
Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem foi entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita. E a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes de João Vidal, o escudeiro.
V
UM LEVITA
«Apostolo é o pae que se afadiga
Só para que descance o filho amado;
Apostolo é a rocha em que se abriga
Ave agoureira e pobre desgraçado;
Apostolo é a lagrima que amiga
Cae pela face em peito amargurado;
E esse monstro do Céu que solitario
Correu o mundo á busca do Calvario.»
(J. de Deus--Flor. do Campo.)
Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.
Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas, tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo, quando mais farto era o anno, com o avanço de seu alvitre, segundo o uso e lei do estabelecimento de Martim Ribeiro, que não marcou limite ao juro para os que o queriam e podiam dar.
É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia do Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e ruinas. Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios prejuizos, são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos, marcando-lhes, sem escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da vida, trilho sempre difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem desastres, para os que o percorrem violentados.