Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o cura d'almas, é a suprema ambição dos camponezes.

Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e para as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam fome se tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não conhecem obstaculos.

Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o pae alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva bem reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar um estudante.

É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e aulas publicas, diminuem as suas occultas necessidades.

Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade, e preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.

Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que todos os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que era a sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um estudante em sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas objectára dever ser o admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles felizes tempos, só depois dos trinta annos completos se gosava o nome de homem.

Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias, confundindo o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de mãos tão singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue traspassa a cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas e os ardores moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após a communicação, a reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de todos, por ser incuravelmente nervoso.

A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura tendo a séde na alma.

Decorreram cinco annos.

Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de Eugenia e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de impurezas.