Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra havida por mais terna: é assim o coração humano.

O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella, como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com todo o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só teve lagrimas em resposta.

As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada, transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as sente.

Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer do soffrimento.

A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o requinte do sentimento.

A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez reparo em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua preoccupação estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção premeditada. Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da egreja, e foi orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um confissionario, em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara Eugenia n'aquella confessada.

O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?

Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se tornou reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha Thereza no quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.

--Doente, e muito. Diga á snr.a D. Eugenia, que estou vestido, como vê, e que lhe peço a mercê de vir fallar-me.

Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a perguntas, disse: