--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê esta mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta sumptuosidade régia de que partilho?!... Eu, a misera filha de um lavrador, apenas habituada ás palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu, que só por favor conhecia o palacio da minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria!... Podem por ventura ter entrada os dissabores, onde moram as preciosidades?!... Não, mil vezes não!... As estatuetas, os modelos em bronze e jaspe dos principaes monumentos da Europa, os bustos serios e caricatos de notaveis personagens do mundo civilisado, o ébano, a madre-perola, esses milhares de caprichos e de prodigios, as antiguidades, os recocós, as reliquias de toda a arte misturadas com os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que me cérca, de que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e decorar, e que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!...

--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que significam, senhora D. Anna?...

--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!...

--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer o peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas palhas da sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar bafejo o contacto de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente nobres em todas as suas acções... Por que não revela toda a verdade, que eu de sobra conheço na excitação que V. Exc.a manifesta?...

--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo Leopoldo, que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para onde fui atirada em completa nudez, e no qual achei, como nos contos de fadas, tudo que uma princeza póde ambicionar...

--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V. Exc.a, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser revelado. Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de toda a gente. Os haveres de V. Exc.a, se não podem equiparar-se aos de seu illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por escripto, a auctorisação que lhe peço?

--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.

Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os agradecimentos, as despedidas e as recommendações, em que por muito entraram os sentimentos de gratidão que a pobre senhora nutria por toda a familia de D. Maria da Gloria, e o affecto filial aos singelos caseiros, que ella julgava seus progenitores. Durante estas naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou Leopoldo na sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto risonho e o porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada delicadeza, dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço para a conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a esposa para o interior do palacio.

Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.

--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com direito a fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.