Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços e as lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por Arthur Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo chamar-se por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:

--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!... Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me consente este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não repugna o sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que tenho soffrido muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era o não poder chamar-te--filho--nem ouvir de tua bôcca o dôce nome de--pae... Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não amaldiçôas o teu nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da paternidade legal...

--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais poderosos da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de minha santa mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa que me deu vida e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a perdoar-lhe, não é assim?... Oh! mas não sabe que o meu maior orgulho é o de ser seu filho?!... Que pae mais heroe, mais santo, mais martyr me podia dar o céu?!...

--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu Deus e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este indigno padre!...

Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos mais felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se passa no palacio de Sebastião da Mesquita.

Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este verdadeiro conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda se alli sente o respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram salvas do incendio as reliquias de familia: São ainda os mesmos os quadros, os retratos, e os brasões. Sebastião da Mesquita está fallando com muita solemnidade a João Vidal:

--É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João, que devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em poucas palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves. Recebi-te em criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a vida criando-te dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado, e dei-te, quando homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o carinho de pae, porque era impossivel, e prejudicial para ti, a revelação do teu nascimento. És filho bastardo de um nobre desnaturado, que sacrificou os seus brios ao dote da mulher, nobre tambem de pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora que todo o perigo é passado, aqui tens os papeis, que provam o teu nascimento, e com elles recebe igualmente este dinheiro, e estes titulos, que tudo te foi legado pela religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e depositado em minhas mãos para te ser entregue quando já não corresses o risco de ser perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher de teu pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel. Fui máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro, que hoje podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as especulações, e que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a leitura dos documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de Leopoldo...

--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu amo e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.a muito de mercê, que me continue a graça de o servir... Quero considerar-me sem parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.a, e o seu mais humilde criado...

--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e não de criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta é-me dictada pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em ti o odio que tens a Leopoldo...

--Mas, senhor...