Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres antepassados, só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos, e de tamanho valor foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este logar enumeral-os. E nem por isso elles ficam ignorados, que, a par dos heroes da espada, viveram os nobres d'outros feitos, os Camões, os Barros, os Coutos, os gigantes eternisadores das memoraveis façanhas de seus coevos, meritorios como elles, e como elles dedicados á grandeza da patria.
Sabemos que á civilisação repugna a conquista, embora tenha de conformar-se com os factos consummados; mas quem ha que duvide da boa fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria, eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se devem attribuir as suas heroicidades.
Mas ser nobre, nem sempre quer dizer ser fidalgo illustre. A nobreza póde ser herdada, e a fidalguia, as acções briosas, não. Para ser nobre bastam os pergaminhos; para ser fidalgo illustre, não se dispensam as virtudes proprias, os actos insignes, os meritos individuaes, e até, e quasi sempre, os auxilios da caprichosa natureza.
Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que não são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e optimo, por sem duvida, é ser illustre e nobre fidalgo.
Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma, reunia em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem distincto. O encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra companheira na infancia, tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu que o fim de Sebastião da Mesquita era proteger a mulher que julgára infelicitar com o forçado casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e levado pelos seus brios a tomar iniciativa propria, teve de inventar para Anna um nascimento e um dote.
Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram. Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido diverso do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de terceiros,--são culpas venturosas de que só podem accusar-se as almas boas, e os espiritos elevados.
Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os sacrificios alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado voluntariamente, e só pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com obrigação completa, a entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia de um nascimento fidalgo, que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava, porque ouvira a Sebastião da Mesquita affirmar o que elle repetira, e tinha toda a confiança no desempenho, mais ou menos tardio, da palavra do honrado velho. Além de que, o esclarecimento d'esta circumstancia, podia demorar-se, visto já ter lançado á imaginação de Leopoldo a existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era o dote.
Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita, perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente, e que havia tomado as suas importantes revelações na devida consideração. Esta resposta não aquietou o animo generoso do voluntario protector. Queria obras, e não palavras, que elle achou frias em caso de tanto brio. Resolveu proceder isoladamente, e com segredo.
Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto puro e vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava, e queria cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia, ficou o padre mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com o generoso compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho movel, e disse-lhe:
--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres. Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe observava que podia adoecer com tão aturado labutar, respondia-me que Deus não havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas vigilias e o seu suor em dote para seu filho... Chegou á força de perseverança a poder commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho producto da roca... Como era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não tenho parte n'essa accumulação de moedas, que te pertencem... Mas essa quantia, bastante notavel para nós, é ainda pequena para dotar a mulher de um rico nobre... Vamos já a Penafiel... Farei perante um tabellião o necessario documento, para que tu possas vender a raiz das propriedades, que foram de meus paes... A raiz só, porque o uso-fructo deve continuar a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por disposição tua... De certo te não recordas já d'aquella tua doação... Eras muito criança ainda, mas com a indole que... que tu tens, meu Arthur!...