--A esposa de V. Exc.a ignorou até hoje, que era senhora de fortuna, como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não póde ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais esclarecimentos. V. Exc.a tem o direito de receber, querendo, o dote da snr.a D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a recepção actual, sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou a pessoa alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do liquidado e recebido por mim.

--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.a não ha de recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...

--Sempre ás ordens de V. Exc.a, para o que fôr do meu brio.

Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu antro, prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo ciume.

II
FIDALGUIA

«É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou por si á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de seus antepassados.»

(V. d'Almeida-Garrett--Helena.)

A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.

Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas as suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram nobres. Os homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo leaes guardadores das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas paragens, exposeram as suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as delicias caseiras,--foram nobres. Os homens que, dados a serios estudos desde a mais tenra infancia, conseguiram nome e gloria para as nações a que pertenciam,--foram nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou barato o rôlo de papel--titulo de nobreza, porque o da fidalguia estava nos seus feitos--de que os descendentes, ainda hoje, e sempre, e com soberbas razões, se devem orgulhar.

Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram leão dos mares, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais remotas e egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.