--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae sabe guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?

--São, apenas, trinta mil cruzados.

--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter meia duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo Leopoldo, que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?

--A esse consentimento, é nossa prima D. Anna que hade responder. Da parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.a como de cousa sua, que é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D. Maria, é vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou obrigado, pelos meus deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria II, a fazer-lhe a vontade, porque hoje mesmo devo retirar-me, para reunir-me ao exercito.

--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr. Arthur Soares?

--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na qualidade de soldado do governo supremo do reino...

Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com que vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que occupavam na sala os differentes actores.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas cortinas, a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava, no meio da sala, um logar junto do precioso movel, onde movia maquinalmente alguns dos objectos que o adornavam. João Vidal, ou de Lencastre, estava sentado a um dos lados, folheando um album de pinturas; e Leopoldo, na extremidade da sala, opposta ao lado occupado por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé, encostado ao pedestal de um magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada sobre os dedos da mão esquerda.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação, dada por Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com raciocinios, que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da verdade.

D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida, avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.