--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho encarregada por meu ex.mo pae e senhor, peço-lhe licença para apresentar-lhe o snr. João de...

--Conheço bastante, minha querida prima e senhora, o seu escudeiro e fiel pagem, que só poderia entrar n'esta casa, como entrou, acompanhando a sua dona...

--Engana-se v. exc.a, meu caro primo, quanto ao mister e aos direitos do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns annos sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e dotado por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo; é, finalmente, irmão de v. exc.a...

--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.a D. Maria da Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...

--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.a, que dará todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...

--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão... Embora por motivos justificados, commetti um acto rude, e offereço-lhe a face, para applicar n'ella a pena de Talião...

--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de sentimentos da nossa querida prima e snr.a D. Maria da Gloria, a espontaneidade com que o abraço, mano João!...

--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder. Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.mo pae: faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o dote d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de posse. Não foi entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de liquidar e receber...

Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria ficar mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao ouvirem aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se, mas não é descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur Soares, pelo auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros expedientes, que Deus concede repentinamente ás almas que o merecem, abrangeu a difficuldade da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente:

--É á snr.a D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em que ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre padrinho, e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar na entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da cobrança de varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade, porque pertenciam, me disse elle, ao dote da snr.a D. Anna, que meu padrinho desejava entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo n'essa cobrança, o desejo de prestar um serviço á minha companheira de infancia, e a necessidade de marchar immediatamente para a cidade do Porto, onde me chamam os deveres de voluntario da causa popular, tudo isto junto á irreflexão, que eu mesmo classifico de imprudencia, arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim recebido, sem ter, como devia, uma prévia conferencia com o meu illustre mandatario, que, pelo que observo agora, desconfiou da minha actividade, e foi enviando o que já era em seu poder...