--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, por um sério estudo, o segredo de tanto se fazer apreciar das bellas... Vamos prestes ao seu encontro, que estou já ancioso por começar as minhas experiencias...
D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e a innocencia, são quasi sempre ingenuas.
Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares, Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão do amor sem desejo, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.
--Venho dar contas a v. exc.a, e a seu illustre marido, do uso que fiz da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro de contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre impertinentes, incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança; mas usando, e talvez que abusando um pouco, da auctorisação e da reconhecida bondade de v. exc.a, passei quitação geral do seu dote pela quantia que recebi e apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e contar...
--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem quero, entrar no mysterio d'esse dote da minha prima e cara esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum allivio, e nunca esperei receber quantia alguma de tal proveniencia... Se minha mulher julgar digno o receber esse dinheiro, receba-o muito embora, que eu nunca procurarei saber qual seja a sua applicação.
--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção. Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um dote, que é meu, entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar que o meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a esta casa dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que haja quem se desaposse de trinta mil crusados, para fazer um beneficio gratuito. Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este dote; se eu mesma, por estar no gôso da munificencia de meu marido, não tenho immediata precisão d'elle, pódem de futuro existir outros interessados, os filhos, que não temos o direito de prejudicar. Acceito, e agradeço ao snr. Arthur Soares, o trabalho que teve para haver o meu dote.
--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v. exc.a um pequeno serviço.
--«A snr.a D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho!...»
A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o «Conto portuguez».
Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria da Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada a inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como seriam recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em que figuram agora mais dous actores: